A casa dos grandes pensadores
 
 

BENEDITO CELSO A. FRANCO

 
 

Os tiros

 

         Uma noite em Belo Horizonte fazia muito calor. Muito calor mesmo! Impossível dormir. Na cama, rolava pra lá e pra cá e nada de pegar no sono. Trabalhava numa multi. No dia seguinte iria a Ponte Nova visitar duas usinas de açúcar. 

         - Em vez de ficar aqui, suado, rolando na cama, sairia agora para Ponte Nova. Adiantaria bem o trabalho de amanhã. Pensei com meus botões.

         Animei-me. Levantei-me. Mas lembrei-me de ter que comprar pneus novos, pois o carro, com pneus carecas, estaria inseguro para viagem, ainda mais à noite - onze e meia.

         - Vou assim mesmo! E fui.

         No caminho, a brisa da noite, noite fresca, noite clara, a lua cheia iluminando a estrada e a paisagem. Cheiro de mato, mato fresco e nada de poluição. Vendo a silhueta das montanhas e quase nenhum movimento de carros, devido ao adiantado da hora, a viagem tornava-se um passeio agradável - e com satisfação o fazia. Tranqüilidade total.

         Até a cidade de Mariana tudo às mil maravilhas.  Parei para um café.

         Saindo, subida forte e depois os morros mais frequentes - serra de Minas - curvas e estrada estreita. Em alguns trechos, os consertos, inclusive alguns sem recapeamento. Em um desses, sem asfalto ainda, mas pronto para recebê-lo, muito cascalho, um dos pneus furou, logo no meio de uma curva bem fechada – essas de 180 graus, como se diz. Encostei do lado de fora da curva, sem visão para frente ou para trás.

         No acostamento, comecei a tirar a roda, quando de repente surgiu uma carreta com enorme tanque de leite, numa velocidade! Derrapou para o meu lado e me jogou alguma areia e pedregulhos - naquela velocidade e naquela curva, devido à força centrífuga, derraparia mesmo!

         Receoso de novamente acontecer, com resultados desagradáveis, resolvi seguir em frente, mesmo com o pneu furado e sabendo o estragaria por completo - afinal, trocá-lo-ia. Perto, mais à frente, um posto de gasolina, onde tudo se solucionaria.

         Rodava e rodava e nada do posto de gasolina. O posto sumiu...  desapareceu ...  Fiquei preocupado - apreensão faz coisa! Faz coisas!...

         Enfim, um poste iluminado, e não um posto. Um grande acampamento do pessoal trabalhador na estrada. Uma  só lâmpada acesa, a do poste - o acampamento às escuras.

         Estacionei ao lado do poste, debaixo de uma árvore, em frente à guarita tosca de madeira - a portaria. Mais atrás as casas pequenas, também de madeira. Na guarita haveria um vigia - ausente, fiquei na esperança de ele aparecer.

         Tudo deserto. Só sons surdos de um forró e farra, bem ao longe, talvez do outro lado do acampamento - o pessoal estaria por lá, o vigia inclusive!

         Coloquei o macaco, levantei o carro e desatarraxei um pouco os parafusos da roda. De uma casa ao lado do acampamento e um pouco tampada pela vegetação, uma fazenda, a uns cento e cinqüenta metros, alguns cachorros começaram a latir. Paulatinamente aumentavam os latidos... em pouco tempo, latiam desesperadamente. Vinham em minha direção.

         Continuei o trabalho, conseguindo retirar a roda.

         Ouço um tiro!

         Outro tiro! Rumo a mim! Tangenciou o poste!

         Àquela hora, às três da manhã, um tiro traz inquietação, dois...

         Os cachorros mais perto. E latiam. E uivavam!

         Um terceiro tiro e as balas passaram entre as folhas da árvore, derrubando algumas...  Para mim!

         O carro sem uma roda... e suspenso pelo macaco!

         Entrei no carro, fechei os vidros, um pouco antes de os cachorros, enfurecidos, aproximarem-se. Rezei o Credo - a reza dos momentos de aflição, como ensinou-me minha mãe. Mesmo a gente dispersado do significado das palavras, a oração acalma.

         Um quarto tiro - pegou bem no tronco da árvore - se em pé estivesse, passaria a um metro de minha cabeça.

         Eu dentro e os cachorros perto. Quatro pastores belgas chegaram. Que feras! Ferozmente latiram. Rodearam e cheiraram todo o carro...  pensaram e... silenciaram...

         Cabisbaixos e os rabos entre as pernas... foram-se...

         Calmos os cachorros e seu dono - nem latidos e nem tiros - após uma meia hora, com tudo tranqüilo, menos eu, saí do carro (Santa Paciência!), coloquei o pneu. Apertando o último parafuso, apareceu o tal vigia, e, em chegando, fui logo quebrando o silêncio:

         - Oi, cumpade!

         - Oi! Um oooi bem compriiido.

         Respirei fundo... liguei o carro, apertei o cinto e o acelerador e saí... numa velocidade!

 
Benedito C. A. Franco

Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 05/10/2010