Os tiros
Uma noite em Belo Horizonte fazia muito
calor. Muito calor mesmo! Impossível dormir. Na
cama, rolava pra lá e pra cá e nada de pegar no
sono. Trabalhava numa multi. No dia seguinte
iria a Ponte Nova visitar duas usinas de
açúcar.
- Em vez de ficar aqui, suado,
rolando na cama, sairia agora para Ponte Nova.
Adiantaria bem o trabalho de amanhã. Pensei
com meus botões.
Animei-me. Levantei-me. Mas lembrei-me
de ter que comprar pneus novos, pois o carro,
com pneus carecas, estaria inseguro para viagem,
ainda mais à noite - onze e meia.
- Vou assim mesmo! E fui.
No caminho, a brisa da noite, noite
fresca, noite clara, a lua cheia iluminando a
estrada e a paisagem. Cheiro de mato, mato
fresco e nada de poluição. Vendo a silhueta das
montanhas e quase nenhum movimento de carros,
devido ao adiantado da hora, a viagem tornava-se
um passeio agradável - e com satisfação o fazia.
Tranqüilidade total.
Até a cidade de Mariana tudo às mil
maravilhas. Parei para um café.
Saindo, subida forte e depois os morros
mais frequentes - serra de Minas - curvas e
estrada estreita. Em alguns trechos, os
consertos, inclusive alguns sem recapeamento. Em
um desses, sem asfalto ainda, mas pronto para
recebê-lo, muito cascalho, um dos pneus furou,
logo no meio de uma curva bem fechada – essas de
180 graus, como se diz. Encostei do lado de fora
da curva, sem visão para frente ou para trás.
No acostamento, comecei a tirar a roda,
quando de repente surgiu uma carreta com enorme
tanque de leite, numa velocidade!
Derrapou para o meu lado e me jogou alguma areia
e pedregulhos - naquela velocidade e naquela
curva, devido à força centrífuga, derraparia
mesmo!
Receoso de novamente acontecer, com
resultados desagradáveis, resolvi seguir em
frente, mesmo com o pneu furado e sabendo o
estragaria por completo - afinal, trocá-lo-ia.
Perto, mais à frente, um posto de gasolina, onde
tudo se solucionaria.
Rodava e rodava e nada do posto de
gasolina. O posto sumiu... desapareceu ...
Fiquei preocupado - apreensão faz coisa! Faz
coisas!...
Enfim, um poste iluminado, e não um
posto. Um grande acampamento do
pessoal trabalhador na estrada. Uma só lâmpada
acesa, a do poste - o acampamento às escuras.
Estacionei ao lado do poste, debaixo de
uma árvore, em frente à guarita tosca de madeira
- a portaria. Mais atrás as casas pequenas,
também de madeira. Na guarita haveria um vigia -
ausente, fiquei na esperança de ele aparecer.
Tudo deserto. Só sons surdos de um
forró e farra, bem ao longe, talvez do outro
lado do acampamento - o pessoal estaria por lá,
o vigia inclusive!
Coloquei o macaco, levantei o carro
e desatarraxei um pouco os parafusos da roda. De
uma casa ao lado do acampamento e um pouco
tampada pela vegetação, uma fazenda, a uns cento
e cinqüenta metros, alguns cachorros começaram a
latir. Paulatinamente aumentavam os latidos...
em pouco tempo, latiam desesperadamente. Vinham
em minha direção.
Continuei o trabalho, conseguindo
retirar a roda.
Ouço um tiro!
Outro tiro! Rumo a mim! Tangenciou o
poste!
Àquela hora, às três da manhã, um tiro
traz inquietação, dois...
Os cachorros mais perto. E latiam. E
uivavam!
Um terceiro tiro e as balas passaram
entre as folhas da árvore, derrubando
algumas... Para mim!
O carro sem uma roda... e suspenso pelo
macaco!
Entrei no carro, fechei os vidros, um
pouco antes de os cachorros,
enfurecidos, aproximarem-se. Rezei o Credo - a
reza dos momentos de aflição, como ensinou-me
minha mãe. Mesmo a gente dispersado do
significado das palavras, a oração acalma.
Um quarto tiro - pegou bem no tronco da
árvore - se em pé estivesse, passaria a um metro
de minha cabeça.
Eu dentro e os cachorros perto. Quatro
pastores belgas chegaram. Que feras! Ferozmente
latiram. Rodearam e cheiraram todo o carro... pensaram
e... silenciaram...
Cabisbaixos e os rabos entre as
pernas... foram-se...
Calmos os cachorros e seu dono - nem
latidos e nem tiros - após uma meia hora, com
tudo tranqüilo, menos eu, saí do carro (Santa
Paciência!), coloquei o pneu. Apertando o último
parafuso, apareceu o tal vigia, e, em chegando,
fui logo quebrando o silêncio:
- Oi, cumpade!
- Oi!
Um oooi bem compriiido.
Respirei fundo... liguei o carro,
apertei o cinto e o acelerador e saí... numa
velocidade!