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Diálogo presenciado e ouvido por mim:
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- Uai, mais como qui cê foi na cerimôina da
Semana Santa, si ocê é da igreja evangeica?
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- Cumadre, só nun goisto é d’isprita.
Goisto muito é de Deus!
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- ...aah..
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O Tião taí?
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- O Tião taí?
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- Não, o Tião não veio hoje.
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- O Tião taí?
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- Não, o Tião tamém num vei hoje.
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- E hoje, o Tião veio?
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- Qui nada moço, acho inté qui o Tião, de tão duente,
foi pará no hospitá!
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Da oficina fui atrás de saber notícias do
Tião, meu mecânico. Como verdadeiramente estava
doente, deram-me o endereço.
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A casa encontrava-se fechada.
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Voltando à casa, informaram-me ter sido
internado. Resolvi visitá-lo, mas no hospital não
foi possível devido à proibição médica. Voltarei
outro dia. E voltei, mas as visitas continuavam
proibidas.
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Numa terceira tentativa, soube do regresso
do Tião para a casa paterna. Fui, mas... visitas
proibidas.
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Doença contagiosa
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Novamente lá, mas não foi possível ver o
Tião, pois, como me explicaram os parentes, ou
amigos, doença grave e talvez contagiosa. Outra
tentativa de visita, repetiu-se o mesmo, isto é,
acabei mais uma vez não conseguindo ver o Tião.
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E o Tião faleceu. Morreu mesmo!
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Por duas vezes fui até sua casa, o
velório lá, veria o Tião no caixão, mas, casa
pequena, e a sala, onde se encontrava o
caixão, menor ainda – minúscula! - e
sempre lotada.
Muita gente... não deu pra entrar.
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- Abra o caixão!... ?
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Às dezesseis horas fui à missa de corpo
presente, seguindo o cortejo, de casa para a igreja
e da igreja até o cemitério.
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Tinha a intenção de jogar um pouco de
terra sobre o caixão, como é costume e sempre o fiz
desde menino. Fiquei bem na beirada da sepultura.
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- Abra o caixão!
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- Não! Não abra o caixão, pois os médicos
proibiram!
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- Abra o caixão!
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- Não abra!
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- Temos que ver!
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- O pai dele pode mandar abrir!
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Um senhor moreno, meio novo, abanou a
cabeça, permitindo a abertura do caixão! Estranhei
aquela figura. Seria o pai do Tião?
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Que susto!
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Quando desapertavam os parafusos da porta
do caixão, alguém de meu lado me deu uma cotovelada.
Uma cotovelada de cumprimento. Olho. Quem vejo? O
Tião vivo, em carne e osso. Do meu lado!
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Quase caí dentro da sepultura!
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Estudava matemática na Faculdade de
Caratinga e, na volta, à noite do mesmo dia, às duas
da madrugada, já em Fabriciano, transitando de carro
debaixo de um viaduto deserto, também passava por
lá, a pé, o Tião! Assustei-me novamente!
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Mais tarde fiquei sabendo que meu
mecânico, apesar de mais velho, era chamado de
Tiãozinho. Tião era seu ajudante, um menino de 14
anos – naquela época, menino com 14 anos poderia
trabalhar.
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Morreu de meningite.
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E que descanse em paz!
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Benedito Franco
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NB: Sou católico apostólico romano e, embora
não aceite suas crenças, respeito muito os espíritas
– e como há gente boa no meio deles! BF
Benedito C. A. Franco
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 01/04/2010
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