A casa dos grandes pensadores
 
 

BENEDITO CELSO A. FRANCO

 
 
         Diálogo presenciado e ouvido por mim:
         - Uai, mais como qui cê foi na cerimôina da Semana Santa, si ocê é da igreja evangeica?
         - Cumadre, só nun goisto é d’isprita. Goisto muito é de Deus!
         - ...aah..
 
 
O Tião taí?
 
         - O Tião  taí?
         - Não, o Tião não veio hoje.
         - O Tião taí?
         - Não, o Tião tamém num vei hoje.
         - E hoje, o Tião veio?
- Qui nada moço, acho inté qui o Tião, de tão duente, foi pará no hospitá!
         Da oficina fui atrás de saber notícias do Tião, meu mecânico. Como verdadeiramente estava doente, deram-me o endereço.      
          A casa encontrava-se fechada.
         Voltando à casa, informaram-me ter sido internado. Resolvi visitá-lo, mas no hospital não foi possível devido à proibição médica. Voltarei outro dia. E voltei, mas as visitas continuavam proibidas.
         Numa terceira tentativa, soube do regresso do Tião para a casa paterna. Fui, mas... visitas proibidas.
Doença contagiosa
         Novamente lá, mas não foi possível ver o Tião, pois, como me explicaram os parentes, ou amigos, doença grave e talvez contagiosa. Outra tentativa de visita, repetiu-se o mesmo, isto é, acabei mais uma vez não conseguindo ver o Tião.
           E o Tião faleceu. Morreu mesmo!
           Por duas vezes fui até sua casa, o velório lá, veria o Tião no caixão, mas, casa pequena, e a sala, onde se encontrava o caixão, menor ainda – minúscula! - e sempre lotada. Muita gente... não deu pra entrar.
 
- Abra o caixão!... ?
 
           Às dezesseis horas fui à missa de corpo presente, seguindo o cortejo, de casa para a igreja e da igreja até o cemitério.
           Tinha a intenção de jogar um pouco de terra sobre o caixão, como é costume e sempre o fiz desde menino. Fiquei bem na beirada da sepultura.
          - Abra o caixão!
          - Não! Não abra o caixão, pois os médicos proibiram!
          - Abra o caixão!
          - Não abra!
          - Temos que ver!
          - O pai dele pode mandar abrir!
           Um senhor moreno, meio novo, abanou a cabeça, permitindo a abertura do caixão! Estranhei aquela figura. Seria o pai do Tião?
 
Que susto!
 
          Quando desapertavam os parafusos da porta do caixão, alguém de meu lado me deu uma cotovelada. Uma cotovelada de cumprimento. Olho. Quem vejo? O Tião vivo, em carne e osso. Do meu lado!
          Quase caí dentro da sepultura!
          Estudava matemática na Faculdade de Caratinga e, na volta, à noite do mesmo dia, às duas da madrugada, já em Fabriciano, transitando de carro debaixo de um viaduto deserto, também passava por lá, a pé, o Tião! Assustei-me novamente!   
          Mais tarde fiquei sabendo que meu mecânico, apesar de mais velho, era chamado de Tiãozinho. Tião era seu ajudante, um menino de 14 anos – naquela época, menino com 14 anos poderia trabalhar.
         Morreu de meningite.
         E que descanse em paz!
 
                   Benedito Franco
 
     NB: Sou católico apostólico romano e, embora não aceite suas crenças, respeito muito os espíritas – e como há gente boa no meio deles! BF

 

Benedito C. A. Franco

Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 01/04/2010