- Padre Antonio Vieira na Catedral de
Brasília!
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- Sermão do Bom Ladrão
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- ...Nas Índias, os governantes chamam-se sátrapas (Sat
= assaz e rapio = eu roubo), porque costumam roubar
assaz. E este assaz é o que especificou melhor S. Francisco
Xavier, dizendo que conjugam o verbo rapio por todos os
modos. O que eu posso acrescentar, pela experiência que tenho,
é, que não só do cabo da Boa Esperança para lá, mas também das
partes daqui, se usa igualmente a mesma conjugação. Conjugam
por todos os modos o verbo rapio;
- - porque furtam por todos os modos da arte, não falando em
outros novos e esquisitos, que não conheceu Donato, nem
Despautério.
- - Tanto que aqui chegam, começam a furtar pelo modo
indicativo, porque a primeira informação que pedem aos
antigos, é que lhes apontem e mostrem os caminhos por onde
podem abarcar tudo.
- - Furtam pelo modo imperativo, porque como têm o mero e
misto poder, todo ele aplicam despoticamente às execuções da
rapina.
- - Furtam pelo modo mandativo, porque aceitam quanto lhes
mandam; e para que mandem todos, os que não mandam não são
aceitos.
- - Furtam pelo modo optativo, porque desejam quanto lhes
parece bem; e gabando as coisas desejadas aos donos delas, por
cortesia sem vontade as fazem suas.
- - Furtam pelo modo conjuntivo, porque ajuntam o seu pouco
cabedal com o daqueles que manejam muito; e basta só que
ajuntem a sua graça, para serem, quando menos, meeiros na
ganância.
- - Furtam pelo modo potencial, porque sem pretexto, nem
cerimônia usam de potência.
- - Furtam pelo modo permissivo, porque permitem que outros
furtem, e estes compram as permissões.
- - Furtam pelo modo infinitivo, porque não tem fim o furtar
com o fim do governo, e sempre aqui deixam raízes, em que se
vão continuando os furtos.
- - Estes mesmos modos conjugam por todas as pessoas; porque
a primeira pessoa do verbo é a sua, as segundas os seus
auxiliares e as terceiras, quantas para isso têm industria e
consciência.
- - Furtam juntamente por todos os tempos, porque o presente
(que é o seu tempo) colhem quanto dá de si o mandato;
- - e para incluírem no presente o pretérito e futuro, do
pretérito desenterram crimes, de que vendem os perdões e
dívidas esquecidas, de que se pagam inteiramente; e do futuro
empenham as rendas, e antecipam os contratos, com que tudo o
caído, e não caído lhe vem cair nas mãos.
- - Finalmente, nos mesmos tempos não lhes escapam os
imperfeitos, perfeitos, plusquam perfeitos, e quaisquer
outros, porque furtam, furtaram, furtavam, furtariam e
haveriam de furtar mais se mais houvesse.
- - Em suma que o resumo de toda esta rapante conjugação vem
a ser o supino do mesmo verbo: a furtar para furtar.
- - E quando eles têm conjugado assim toda a voz ativa, e o
miserável povo suportado toda a passiva, eles, como se tiveram
feito grandes serviços, tornam a seus Estados carregados de
despojos e ricos; e ele fica roubado, e consumido.
- É certo que o Governo não quer isto, antes mandam em seus
Ministros tudo o contrário; mas como as patentes se dão aos
gramáticos destas conjugações tão peritos, ou tão espertos
nelas; que outros efeitos se podem esperar dos seus governos?
Cada mandato destes em própria significação vem a ser uma
licença geral in scriptis, ou um passaporte para
furtar.
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- Não sou eu!...
- Eu não sei de nada!... Foi o Padre Vieira quem falou!
Benedito C. A. Franco
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 03/08/2009
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