A casa dos grandes pensadores
 
 

BENEDITO CELSO A. FRANCO

 

Padrinho Natinho

Padrinho Natinho morava no final da descida do morro da Rua Seca, em frente à casa da Tia Etelvina e Tio Antonio – casa com uma enorme varanda tipo de fazenda. Aí iniciava a estrada para o Melo Vianna, um pouco antes da fazenda do Sô Ari de Barros – onde hoje há o trevo e uma concessionária de carros começava a reta até o Melo Vianna – a Avenida Magalhães Pinto de hoje.

            Passava alguns dias das férias na casa de meu padrinho e de sua senhora, Dona Ritinha. Ficavam eufóricos com minha presença. Eu dormia no quartinho em frente ao deles e todo dia levantava cedo para ir à missa. Dona Ritinha possuía uma voz poderosa – nas missas diárias, e outras cerimônias, nos cânticos e ladainhas ouvia-se sua voz grossa e potente – uma Maria Alcina, se na época TV houvesse – daria uma ótima e potente cantora de ópera.

            A rua tinha tanto barro que era chamada de Rua Seca; em seu final localizava a casa do padrinho Natinho, com um grande terreno, com inúmeras nascentes d’água; uma enorme horta e muita banana nanica e outras frutas, sem agrotóxicos – não existiam! Banana nanica, a caturra, tem esse nome devido ao seu pé ser nanico, pequeno. Dona Ritinha mandava vender, de porta em porta, em balaios de taquara, as frutas e verduras - bananas, e a maioria das frutas, vendidas a dúzia ou pencas. Lá, eu comia muita banana – de vez em quando mamãe se lembrava e fazia hora comigo. Sem filhos – a não ser uma adotada: a Nilda – criada como filha natural e com todo carinho. A Nilda tinha uma deficiência numa das pernas e em um dos braços – dizia-se que era filha do Sô Domingos e que sua mãe falecera quando ela nasceu.

Meu padrinho fabricava cangalhas e cangas para juntas de boi. De couro cru trançava, com quatro, seis ou oito pernas, os laços, cabrestos, chicotes, barrigueiras para cavalos – admirava-me ele, com a maior facilidade, cortar o couro em tiras tão compridas e finas para o trançado caprichado de um verdadeiro artesão.

          Padrinho Natinho tinha a cara fechada, cara de mau, mas um grande coração! E como gostava de mim – e eu dele!

            Meu padrinho de batismo era o Sô Juca Nanias – sempre de terno e muito bem vestido. Quando ia a Fabriciano não deixava de me visitar e dava-me Cr$ 5,00 – o que era um bom dinheiro e que eu colocava no Banco da Lavoura do Sô Alberto Giovanini. Em 1949 coloquei lá meus cinco cruzeiros e em 1958 retirei-o – com juros e sem nenhuma taxa ou imposto. Se fosse hoje, depois que aceitaram bancos multinacionais no Brasil, eu deveria uma fortuna ao banco e poderia até estar sendo processado! Os bancos de hoje são os maiores e piores assaltantes e espalhadores de miséria nos países subdesenvolvidos. No Brasil, mandam e desmandam, açambarcando toda nossa riqueza e tudo que o país arrecada, além de cobrar taxas exorbitantes e juros mais escorchantes ainda - os maiores do mundo! – E tudo legal!

            Tia Zina também era minha madrinha - não sei de que, mas era -, mas minha madrinha de batismo era a Tia Bita – poderia ser melhor?

           E ainda tinha como padrinhos o Sô Ramiro e o José Tibúrcio. Desconheço como mamãe arranjou tantos e tão bons padrinhos para mim!

Benedito C. A. Franco

Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 07/07/2009