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Luis Filipe, meu neto de nove anos:
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- Ô Vô, estou torcendo pra Argentina,
mesmo que a Argentina vai jogar com o Brasil. Eu
gosto mais do futebol dela.
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- Mas Luis Filipe, você tem que ser
patriota. Tem que torcer pelo Brasil!
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- Ô Vô... é futebol, Vô!... é futebol!
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Parafusos e Afrodite.
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Ioga e Dops.
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Cursava engenharia civil na cidade de
São Paulo, curso noturno, e tinha como colegas
o Elias e o Rodrigo.
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Elias, mais velho, sempre cansado e com
cara de cansado, além de sério e, apesar de bem
barbeado, dava para notar que, deixando crescer,
a barba seria bem espessa, aumentando ainda mais
a cara de pai de família sisudo - pessoa ótima.
Chegava muitas vezes atrasado às aulas, mas eu
respondia ou assinava sua presença - o que ele e
o Rodrigo correspondiam.
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O Rodrigo, de temperamento mais aberto,
alegre e sorridente, até mesmo um pouco moleque,
mas bom amigo. Para ir às aulas, Rodrigo e eu,
de quando em vez e alternadamente, pegávamos
carona no carro de um ou de outro.
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Elias constantemente me convidava para
ir à sua casa para conhecer a família em
Guarulhos, cidade às margens da Rodovia Dutra,
na saída de São Paulo para o Rio. Dono
de fábrica de parafusos - e parafusos especiais.
Quando se referia à fábrica, desmentia-o:
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- Mentira, Elias! Com essa cara de sono
e essa cara de urubu cansado...
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Ria, sem esboçar quaisquer reações de
mau humor.
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Um dia o Elias chegou com semblante aberto e
sorridente:
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- Franco, comprei uma máquina de
fazer parafusos, custou-me Cr$ 75.000,00 (uma
fortuna) e cospe um monte de parafusos por
minuto.
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- Mentira, Elias! Traga ao menos um
para eu ver!
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Diante das palavras e provocações não
podia brigar comigo, pois as presenças e os
trabalhos da escola seriam prejudicados! Ele
sorria...
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No dia seguinte, com sorriso mais largo
ainda, chegou o Elias com um parafuso de uns 3/4
de polegada de diâmetro por umas cinco de
comprimento. Mostrou-me todo contente e
eufórico:
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- Agora você acredita em mim e vai lá
em casa!
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- É... vou conversar com a “dona
Maria", como diria o Rodrigo, e iremos no
próximo domingo.
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Rodrigo, logo no início do curso,
casou-se. De quando em quando a gente se
encontrava - sempre brincando com a esposa.
Conheci-a grávida. Nasceu a filha. Acreditem,
levou o nome de Afrodite! Nome bem o retrato do
Rodrigo!... A sua deusa!
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A casa e a Família
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No domingo, minha esposa, a Tatiana,
com um ano e meio, e a Fernanda, com cinco
meses, fomos para Guarulhos procurar a casa do
Elias. No endereço encontramos uma senhora
mansão, de alguns andares. Ficamos receosos de
chamar e, bate ou não bate a campainha,
resolvemos chamar na casa em frente, mais
simples e modesta.
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- É, gente, sou o pai do Elias e ele
mora na casa daí de frente. É só apertar a
campainha e atenderá.
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O velho senhor aproveitou para
contar-nos ser dono do imenso terreno, vários
hectares, herança de família, praticamente no
centro de Guarulhos e, diante de tantas fábricas
no município, o sonho seria ver pelo menos um
dos filhos industrial, ocupando parte ou todo o
terreno.
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A tranqüilidade do Elias advinha, como
constatamos, da família maravilhosa. Os filhos
estudavam e a esposa fazia curso superior de
ioga, tendo ido à Índia duas vezes para praticar
e aprender mais.
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Elias possuía uma câmara de filmar,
uma super-8, coisa rara naquele tempo em que se
filmava em fita de celulose. Vindo de Atibaia,
na descida da Serra da Cantareira, a mulher
dirigindo, ele filmava, a porta do carro se
abriu e acabou aparecendo o filho, de um ano e
meio, caindo do carro e rolando no asfalto -
mostrou-me.
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A fábrica de parafusos
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A fábrica ao lado da casa do pai que,
desde o início, trabalhava com ele como boy
- a maior satisfação de sua vida!
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Alguns anos antes, o Elias era
desenhista projetista - desenho técnico. Tendo
recebido boa indenização da firma e, notando a
dificuldade de se acharem parafusos especiais
para os projetos, comprou um torno e começou a
procurar as firmas conhecidas, oferecendo-lhes o
trabalho.
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O pai pressentiu um filho industrial, o
sonho realizado, e se colocou à disposição, indo
à cata de cada uma das muitas fábricas da
redondeza à procura de serviço para o novo
industrial.
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Na época em que conheci o Elias, a
fábrica produzia os maiores parafusos no Brasil,
tinha quarenta tornos de todos os tamanhos,
alguns nunca vistos por mim, e uns oitenta
empregados.
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Em um domingo, presenciei o seguinte
diálogo entre o Elias e um industrial cliente:
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- Elias, preciso que você
fabrique sessenta dos parafusos que você fez
para mim no mês passado.
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- Impossível. Tô arroiado de serviço e
ademais meu material, aço especial de Acesita,
acabou. Se encomendar leva alguns dias para
chegar.
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- Cobrou-me Cr$ 3,00, eu pago Cr$ 6,00.
Veja se faz os sessenta para mim!
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- Nem seis e nem sessenta e seis
cruzeiros!
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- Pago sessenta e seis e ainda busco o
material!
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O Rodrigo contou-me que passou
disparado no meio de uma blitz da polícia do
Dops. Vieram atirando atrás.
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- E não tem medo?
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- Que nada... são colegas!... Ando com
colete!
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Depois de três anos, na
ditadura, descobri que o fiel amigo
pertencia ao Dops! Ainda bem que desconheceu ou
se esqueceu do que eu lhe falava!
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Em compensação... o Elias, com a
família, era muito melhor do que o imaginado! E
ainda incutiu-nos, em mim e em minha família, o
gosto pela ioga.
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Quando iniciávamos o quarto ano de
engenharia, comentava-se que a ditadura fechou a
Escola!
Benedito C. A. Franco
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 01/07/2010
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