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Paralisia facial
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Coronel Fabriciano, MG, é terra quente - fria,
um pouco no inverno, nada mais que temperaturas normais
no verão de Conselheiro Lafaiete.
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No final de um mês de maio, tomava banho bem
quente - descontando o frio que passei em Congonhas,
onde, além do frio intenso, só se tomava banho frio -
eu, fabricianense e menino na puberdade, sofria muito
com isso.
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Papai resolveu trocar as janelas da casa, de
tábuas brutas, por janelas com persianas. O Senhor
Joaquim Tobias e os filhos, família unida e de alto
conceito, ótimos carpinteiros e marceneiros, fabricaram
e assentaram-nas.
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Na tarde fria e com ventos fora do normal,
tomava banho quentíssimo, apesar dos apelos da mamãe
para eu sair logo:
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- Benedito Celso, saia logo desse banho... a
Cemig tá muito cara! Pode fazer mal!
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- Fez ouvidos de mercador
- disse-me ela depois.
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Pelo vão aberto da janela a ser assentada,
entrava um vento forte e gélido, sentido por mim que
ficara tempos no banheiro tomado pelo vapor. A baforada
de vento estremeceu todo meu corpo, a cabeça levou um
choque e algo estranho na face e boca. Uma hora depois
fui tomar café e o sabor foi diferente em um dos lados
da boca. Esquisito...
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Marcamos encontro, a nova namorada e eu, numa
festa junina - percebeu haver algo de errado no meu
semblante:
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- Parece-me que você está com a boca
torta...
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- Tô achando esquisito mesmo.
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Resultado: paralisia facial do lado esquerdo.
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Passei a sentir o gosto só de um lado da boca -
até água tinha sabores diferentes, ou melhor, do lado
esquerdo ausência total de paladar - aí que percebi como
a água tem gosto e gosto gostoso.
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Com a doença dirigi-me a Belo Horizonte para
fazer massagem elétrica na face esquerda - em Fabriciano e
região inexistia o aparelho - comum hoje. Três massagens
por semana: às segundas, quartas e quintas-feiras - a
peleja durou um ano.
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A viagem semanal feita de carro, um Vemag - bom
e econômico. Quando voltava parava em um posto de
gasolina em Nova Era - aproveitava para fumar e um
cafezinho. Numa dessas apareceu um homem, bem vestido -
mas estraçalhava a língua pátria! Pediu-me carona até
Fabriciano:
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- Cê ta bão? Cê é fio do Sô Zé e conheço seu
irmão - trabaiei com ele numa mecânica. Agora moro em
São Paulo e tô indo pra Fabriciano. Sô fio do Sô Joaquim
Tobias - acho inté que ele fêis umas janela pra seu pai
e não tem muito tempo. Cê me dá uma carona?
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Acho que fazia tipo...
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- Tudo bem.
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Perguntei ao dono do restaurante se conhecia a
figura - declarou-me que não - deu-me um sinal de
reprovação.
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- Vou ao banheiro. Espere um pouco aqui.
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Quando ia saindo do restaurante, percebi que o
rapaz estava acompanhado de três homens fortes e pardos
e com caras de maus - vieram atrás de mim.
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- Meu Deus! O que fazer neste lugar meio
escuro e a essa hora, uma da manhã, e só o dono do
restaurante ali comigo.
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Chegou um ônibus. Estacionou entre meu carro e
o restaurante. Tomei sentido dos banheiros.
Eles voltaram para dentro do restaurante, dizendo-me que
me esperariam. Aproveitei que o ônibus tampava meu
carro, não entrei no banheiro, passei por trás, peguei o
carro e zarpei à toda.
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No dia seguinte, notícia na rádio e nos
jornais: "Em Nova Era, MG, caroneiros, um branco e três
pardos, matam o motorista e levam o carro!"
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Com o passar do tempo, fiquei sabendo que a
virtuosa e trabalhadora família do Senhor Joaquim
Tobias possuía uma ovelha negra - assaltante e assassino
em São Paulo.
Benedito C. A. Franco
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 28/04/2010
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