A casa dos grandes pensadores
 
 

BENEDITO CELSO A. FRANCO

Pico do Itabirito

 

Naquele dia de São Marcos, 25 de abril, uma surpresa: um passeio ao Pico do Itabirito - 1.586 metros de altitude e a 20 km da cidade de Itabirito, MG. Adorado pelos povos primitivos da região, pela pompa tornou-se o Monte Sagrado. Inspirava a presença de deuses, fazendo a idolatria de indígenas que se reuniam em torno da enorme pedra, constituída de pura hematita (Do Gr. haîma, atos = sangue + Do Tupi ita = pedra) "Pedra de Sangue". O Pico é tombado pelo Patrimônio Natural Estadual, mas, para visitá-lo, é necessário autorização da MBR. Apesar do tombamento, está sendo desmontado por essa mineradora, nem sempre com espírito de conservação da natureza ou espírito nacionalista - e os itabiritenses deixam!... Vai acontecer o que aconteceu com os itabiritanos: perderam o Pico Cauê - a Vale do Rio Doce o desmontou! Quando quiserem ver um horrendo crime ambiental, passem pela estrada de Mariana a Catas Altas – nossa imprensa se cala!

Estudávamos num colégio interno, dos Padres Redentoristas, em Congonhas.

As mochilas preparadas e os caminhões, com tábuas atravessadas nas carrocerias, serviam de bancos, esperando-nos. Os "chauffeurs", o Sô Geraldo e o Barbosa, bons profissionais, apesar dos caminhões de marcha seca e dura e da estrada de terra, cascalhada com pedra de minério de ferro. Não havia ônibus.

Entrávamos na antiga estrada, rumo ao Pires, e seguíamos pela BR 040, com promessa de ser asfaltada em breve. O Viaduto das Almas pronto - à época, uma das Sete Maravilhas do mundo, pelo menos para nós - conhecíamos apenas pontes de madeira. Mais ou menos na hoje entrada para Moeda, seguíamos à direita até o pé do Pico do Itabirito.

Viagem agradável, apesar dos trancos e solavancos dos caminhões - ou trancos e barrancos, como dizíamos - estávamos acostumados. Cantávamos em coro e conseguíamos até cantar músicas executadas pelo nosso coro, a duas, três ou  mesmo a quatro vozes. Coro ótimo - fui organista durante algum tempo, chegando a regê-lo e à pequena banda de música do colégio.

Nunca fui um grande músico - um músico razoável que gostava de experimentar todos os instrumentos da bandinha - a furiosa! - e adorava o órgão - nem era órgão e, sim, um harmônio - mas, era chamado de organista. O harmônio é um pequeno órgão, cujo fole é tocado com os próprios pés do organista - os órgãos de hoje são eletrônicos.

Chegando ao monte, gigante de minério de ferro, despontando num planalto, talvez da altura do Pão de Açúcar, montávamos acampamento a seus pés. É lindo contemplá-lo de perto, debaixo de suas barbas - dá mesmo a sensação de sua grandeza e da grandeza de Quem o fez.

Os colegas cozinheiros ficavam para preparar a comida - iam prontos: o arroz, o feijão, tomate inteiro, picado na hora, farofa e carne em forma de almôndega. Levávamos os talheres, pratos e canecas de alumínio - ainda não existiam os de plástico.

Cada um tinha seu cantil com água.

Começava a subida, pela parte traseira, em fila indiana, e o chefe à frente.

Sempre apressado e afoito para essas coisas, procurava ir à frente, inclusive conversando com o chefe - assim chamado o colega mais velho que puxava a fila -  mais experiente e, assim, andando, observando e tomando conhecimento de coisas novas. Normalmente, é bom aproveitar a oportunidade de aprender e, a cada dia, descobrir que mais e mais todos temos a aprender.

Cada vez mais íngreme o caminho, despontando um horizonte de cinema. Num certo trecho, a trilha bifurcava. O chefe por uma, alguns poucos colegas e eu por outra. Resultado: saímos bem à frente do chefe e seus seguidores. Jovens e afoitos, com a satisfação de estarmos à frente de todos, resolvemos apressar os passos, morro a cima - para não nos perdermos era só olhar para o alto e seguirmos; aliás, não tinha como se perder, só subir e subir, chegava-se ao cimo do monte.

Encimando o  Pico do Itabirito, duas pontas, cá de baixo parecem pequenas - são morros altos. Num raio de 50 km, ou mais, vê-se puro minério de ferro. Passando pela BR 040, Rio-Brasília, observam-se as pontas e o minério da região.

Chegando ao alto, parti para uma das pontas, a maior das duas, antes de todos. Uma vista maravilhosa, dando a impressão de perceber até a curvatura da terra. Em baixo, a fila indiana, com quase duzentos colegas e, no final, talvez ainda no meio do caminho, o Padre Diretor - Padre Marcos Gabiroba.

Dei um assobio; não sou muito bom nisso, mas saiu às mil maravilhas. Com o eco da serra, o Padre Diretor escutou - pude perceber, olhou para o alto.

Apesar de longe, alguém deve ter falado para ele que era eu. Determinou, ordem imperativa mesmo, e o pessoal foi gritando morro a cima:

- "Benedito, fique de joelhos aí, com os braços abertos, até que eu chegue !"

Gente, como os joelhos doeram!...

 

Dias atrás recebi algumas paisagens do deserto de Atacama, no norte do Chile.

Quem desejar ver paisagens semelhantes às do deserto de Atacama é só visitar nosso "Quadrilátero Ferrífero", atacado por algumas multinacionais e principalmente pela Vale do Rio Doce - quer mudar de nome, tentando apagar um pouco a má impressão que anda causando.

Gente, vá de Mariana e Barão de Cocais; vá ao alto da serra de Belo Vale e verá duas paisagens contrastantes: de um lado o deserto de Atacama, e do outro uma paisagens magnífica a perder de vista.

KD nossos Órgãos e Ongs de Proteção à Natureza ou as APAS?

 

Benedito C.A. Franco

 
Publicação: www.paralerepensar.com.br  13/02/2008