- O Governo,
além de incluir na cesta básica, deveria lançar a pasta de
dente genérica, a escova de dente genérica e o sabonete
genérico...
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- CORONEL
FABRICIANO - Juventude
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065 - Quelemente
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O Clemente, um
preto humilde e simpático, conheci-o na loja de papai. Falava,
falava e sorria - um sorriso de cara inteira e de alguém
feliz. Também sorria com e de seus pensamentos. Que dentes!
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Chegou da roça,
empregou-se e se empolgou com o salário recebido - difícil se
desfazer de um tostão sequer. Trabalhava na serraria de Sô
César – Coronel César - e, parece-me, era bom trabalhador,
morando num dos barracões da firma - composto de uma cozinha
mínima, um pequeno quarto e, do lado de fora, uma latrina,
a casinha, com um chuveiro frio - um cano por onde saía a
água - na época, conforto total.
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Um dia entrou na
loja de papai. Papai puxou conversa:
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- Como você se
chama?
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- Quelemente.
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E emendou:
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- Tô quereno comprá um
pano pra fazê u’a carça e u’a camisa.
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Depois de demorar
bastante para enfiar a mão no bolso, lá se foi o Clemente
levando os panos para a nova roupa, assim como o aviamento
(pano para os bolsos da calça, botões e linha). Não havia loja
de roupa pronta como há hoje - as costureiras faziam camisas
para os homens e os alfaiates as calças e paletós.
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Todas as tardes
chegava o Clemente com a roupa suja do trabalho.
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- Você num vai
tomar um banho e trocar de roupa?
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- Eu tomo banho toda noite e
lavo a minha rôpa. Coloco ela no vará e vô drumi nu, pruquê
num tenho ôtra.
- Empolgou-se tanto com a
nova roupa que jogou fora as, ou a, precárias que tinha e
passou a usar só a nova aquisição.
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Clemente chegava à
loja e estacionava com os dois cotovelos em cima do balcão, as
mãos no queixo, e assim ia, calmamente e com voz baixa e meio
rouca, soltando sua língua pátria de poucos vocábulos, mas que
atraía a muitos, com assunto para todos também.
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Quis comprar um
guarda chuva. Perguntado o porquê de tanta esbanjação,
respondeu: - Pra mim num fartá às aula quando chovê, pois
vô entrá na iscola e meu sonho é sê engenhêro pra construí u’a
grande ponte de cimento armado, como a que vi nu’a revista.
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Comprou o guarda
chuva, mas... a chuva sumiu por uns dois ou três meses. Numa
tarde escureceu o céu e ele ficou de antena ligada.
Passavam-se as horas e nada de chuva. O sono veio e ele
adormeceu. Lá pelas tantas da madrugada, começou a chover.
Levantou-se, vestiu a roupa ainda meio molhada, pegou o guarda
chuva e foi andar pelas ruas. No dia seguinte contou a
novidade para o papai, louvando as qualidades e encantado com
o guarda-chuva. Acabou descobrindo que o guarda-chuva era
também guarda-sol... Com sol ou chuva lá vinha ele armado com
seu guarda-chuva.
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- Ademar de Barros
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Outro grande sonho
seria votar no Adhemar de Barros, Governador de São Paulo. Um
dia iria para São Paulo trabalhar para o Adhemar e lá
estudaria e faria a tal grande ponte de concreto – como as
pontes da região eram de madeira, nunca tinha visto uma de
concreto, a não ser na tal revista. Pedia sempre a alguém para
escrever para o Adhemar - político não deixa de responder...
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Perto da serraria
havia uma coroa – a pedido do Clemente, escrevia as
cartas endereçadas ao Ademar de Barros. O Clemente se engraçou
por ela, a Anita. Sonhava com ela dia e noite, noite e dia.
Clemente mudou de vida, visitando constantemente a loja:
começou a gastança! Passou a andar alinhado! Tudo que via
queria comprar para a Anita. Só não foi à falência porque ela
deve ter segurado um pouco. Apesar de falar na Anita com todo
mundo, não se declarou para ela - apenas levava-lhe presentes
e mais presentes.
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Clemente
maravilhava-se com as bicicletas - comprou uma, aprendeu a
andar e saía todo orgulhoso e garboso em seu meio de exibição
e transporte. Será quantas vezes passou em frente da casa da
Anita?
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Um dia, como chovia
muito, o Clemente quis guardar a bicicleta dentro da venda,
mas, como havia muita gente, ficou do lado de fora com o
guarda chuva aberto e deitado por sobre ela para que ela não
se molhasse.
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- Em São Paulo
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Mandado embora da
serraria, ficou com muita raiva do patrão e dizia para os
quatro ventos que um dia faria uma ponte de concreto armado e
nela colocaria uma placa de bronze "pr’aquele nego
fedorento passá e vê que foi feita por um antigo impregado seu"
e, com seu nome em destaque, mandaria escrever: "PONTE DE
CONCRETO ARMADO FEITA PELO ENGENHÊRO QUELEMENTE". O Sô
César era de cor escura e um grande empresário da região.
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Clemente mudou-se
mesmo para São Paulo, onde arrumou, com a ajuda do Adhemar de
Barros, um emprego de faxineiro em uma escola. Durante alguns
anos, voltava de quando em vez a Fabriciano para visitar os
amigos.
- Cursou o
segundo grau e aposentou-se como cantineiro da escola onde
trabalhava... O sonho de ser engenheiro não diminuiu e muito
menos acabou... e sua admiração pelo Adhemar de Barros
aumentou.
Benedito C. A. Franco
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 04/11/2009
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