A casa dos grandes pensadores
 
 
   

 
 

BENEDITO CELSO A. FRANCO

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Com a crise econômica, os povos pobres ficaram mais pobres e os bancos mais ricos, pois receberam mais de três trilhões de dólares pelo mundo a fora - $ 3.000.000.000.000.00 !!! É muito zero, significando muito sacrifício e muita miséria!!!. Os bancos, não satisfeitos, arranjam mais uma crise e recebem mais um trilhão... e os países pobres da Europa vão sacrificar ainda mais seu pobre povo... a Grécia que o diga!
 
 
Recife... e se casaram
 
         Encontrávamos em Salvador, meu pai e eu, quando resolvi levá-lo a Propriá, cidade do Sergipe, onde um amigo, Dom José Brandão de Castro, mineiro de Rio Espera, era bispo - fora vigário em minha terra, Coronel Fabriciano, MG.
         Viagem tranqüila. Admirando-nos da diferença da paisagem saindo da Bahia, a secura da terra e do mato, adentramos no Estado do Sergipe, bem mais frondoso e bonito, e com muitos canaviais, pelo menos beirando a estrada.
         Dormimos a primeira noite em Aracaju, SE, no início da década de setenta, cidade pacata e simpática. Assistimos a um jogo de futebol no recém-inaugurado Estádio Batistão. Chamou-nos a atenção a presença de toda a família: crianças e adultos, moças, senhoras de idade, homens e rapazes. Lá tomei uma vitamina de jenipapo, muito apreciado pelos nordestinos e que aqui em Minas não usamos - ainda hoje, quando me lembro, vem-me no estômago e na boca seu gosto enjoativo.
         No interior-norte do Sergipe, entrando em Propriá, um calor escaldante, espantamo-nos com todo o comércio no meio da rua - sacarias, carnes, roupas, brinquedos, panelas, enfim, barracas de tudo, quase impedindo a passagem de carros e... sem uma viv'alma!
         Dom Brandão explicou-nos que a cidade fazia a sesta, o povo dormia das onze às quatorze horas, todos os dias; o comércio, e até os bancos, fechavam as portas.
         Mesmo beirando o Rio São Francisco, O Velho Chico, a alma da cidade e da região, o calor era sufocante - com a particularidade da ausência de janelas nos quartos das casas - atenua o calor, afirmam.
         Quando o nível do rio subia bastante, um grande terreno particular ao lado da cidade virava uma lagoa, enchendo-se de peixes, tirados à medida que a lagoa secava.
 
Rumo a Recife
 
         Dom Brandão insistiu para conhecermos Recife e Olinda. Papai contava-nos, aos filhos, que a família da mãe, Vovó Olinda, descendia de holandeses e teria vindo de Olinda para Minas.
         Fomos nós. Atravessamos o rio na balsa, ou chata, transportando carros e pessoas.
         Chegamos à noite à bela Maceió, onde apenas dormimos e, de manhã, depois de uma volta pela cidade, seguimos para Recife. No meio do caminho, uma vez que posto de gasolina  era raro, paramos em uma casa de um casal para pedirmos água. Comoveu-nos a satisfação da pobre senhora em estar recebendo e servindo a conterrâneos do JK - até nos ofereceu milho assado, colhido em sua pequena plantação.
         No Recife, no centro da cidade, ao lado do Rio Capibaribe, perto de sua foz, nós nos hospedamos em um antigo hotel - linda vista!
         Procurei entrar em contato com o Ferdi, um engenheiro químico, amigo de estágio em Barra Mansa, RJ, em uma fábrica de produtos químicos e explosivos. Telefonando-lhe, apareceu imediatamente, levando-me para conhecer Recife.
 
Linda Recife!
 
         Impressionante como Recife é linda! As pontes largas e enormes. Os prédios e casas antigos chamam-nos a atenção e nos toca, recordando-nos a história do Brasil.
         Às duas da manhã, visitava eu a fábrica de Tintas Coral, onde o Ferdi trabalhava, conhecendo-a nos pormenores - maravilha! Recordei-me de quando trabalhei numa fábrica de tintas especiais, no Rio de Janeiro.
         As praias do Recife são deslumbrantes, assim como toda orla por onde passei - o clima é propício para as praias e o lazer; vale a pena visitá-lo! Cuidado, pois hoje há os tubarões - dentro e fora da água!
         Às quatro da manhã, depois de rodarmos quase toda a cidade, o Ferdi deixou-me no hotel.
         Ferdi, uma figura interessantíssima - o coração maior que ele. Um dia, contou-me, ia passando de carro e viu alguns soldados arrastando um rapaz para levá-lo preso, desconhecido para ele - caçavam terroristas. Desceu do carro, atrapalhou todo o trânsito e foi lá. Chegou lutando com os soldados, tomando o jovem de suas mãos. Os soldados, espantados com tamanha fúria, partiram para cima, dando-lhe uma tremenda surra.  Alguns dias preso, e como nada constava contra, soltaram-no – tempos da ditadura.
         No dia seguinte conhecemos Olinda - linda no nome e em tudo existente por lá - percebem-se o cheiro e a presença da história - a nossa história. Adquiri um Cristo esculpido num pedaço de madeira tirada de portas de casas antigas - madeira doada pela Prefeitura do Recife - talhado por um menino de rua que fazia parte de uma escolinha, cujos professores eram alunos da Escola de Belas Artes de Recife - lindo! Como diria minha sogra, Dona Rosa, a gente sai de Olinda com gosto de jornal velho na boca!
 
Zélias
 
         Quando conheci o Ferdi, namorado apaixonadíssimo da Zélia, com quem se casou - falava seu nome cinqüenta e uma de cada cem palavras pronunciadas - e quando não mais a cantava e a decantava em cantos e versos, exaltava novamente Zélia, nome de uma amiga comum.
         A Zélia descobriu que estava grávida e com câncer, logo que se casou. Com todo cuidado e recursos da época, conseguiu dar à luz uma menina, falecendo dias após. No leito de morte, assistida pelo Ferdi e pela Zélia amiga, pediu que a amiga tomasse conta da filha recém nascida e... se casasse com o Ferdi.
         E se casaram.
         Acreditem! Cheguei num sábado, quando o Ferdi deixou a nova esposa Zélia e a filha, conheci as duas, para me mostrar Recife.
         Só que... se casou no dia anterior, na sexta-feira à noite...
         Esse era o meu amigo Ferdi!...
 
Benedito C. A. Franco

Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 12/05/2010