Rumo a Congonhas
O ser coroinha, mais o sonho e os incentivos da
mamãe, a labuta diária na igreja e o contato com os padres,
levou-me a pensar em ir para o seminário e ser padre.
Um dia o sonho virou realidade.
Mamãe preparou o enxoval.
Em um janeiro, papai e eu embarcamos na
maria-fumaça, rumo a Congonhas.
Janeiro, mês de muita chuva. Aquele janeiro chuvoso
afetou, e muito, as precárias ferrovias da Vitória a Minas e da
Central do Brasil, nos trechos de Fabriciano a Nova Era e de
Nova Era a Belo Horizonte. Resultado: as barreiras obrigaram-nos
a pernoitar em Nova Era, onde acabei conhecendo meu primeiro
arranha-céu: um
prédio de três andares! Em Fabriciano havia tido um prédio de
dois andares, estilo antigo, de táipa-de-mão, em frente ao Hotel
do Sô Cornélio, mas desmoronou-se aos poucos e, logo depois, o
Coronel Silvino Pereira construiu mais um.
Na viagem até BH conhecemos um casal de fazendeiros
que nos indicou uma pensão onde costumavam se hospedar. Papai se
arrependeu, e muito, pois a pensão, no início da Rua da Bahia,
era péssima! Só ao entardecer do dia seguinte haveria trem para
Congonhas. Aproveitamos a manhã para eu conhecer um pouco Belo
horizonte, andando de bonde por vários bairros.
Incrível: um menino, de mais ou menos minha idade,
pega uma carona no bonde, senta-se ao meu lado e rápido trocamos
algumas palavras. Naquele tempo o motorneiro conhecia a meninada
das ruas por onde passava, diminuía a velocidade e os meninos
pulavam no estribo e andavam um ou dois quarteirões, agradando e
sendo agradado pelo condutor e pelo trocador.
À tarde, conheci o Cine Brasil – não me lembro o
filme. Lembro-me como fiquei extasiado pela beleza do cinema e
pelos carros brilhando nas ruas – as pinturas dos carros ainda
eram de tinta do tipo laca,
que, por seu brilho, tornavam os carros bem mais atraentes que
os de hoje. As luzes de neon das propagandas nas ruas
encantavam-me mais ainda. Aquele piscar de luzes coloridas
tornava Belo Horizonte uma cidade viva e alegre.
Tomamos a maria-fumaça mais possante – não a lenha,
mas a carvão vegetal - na bela estação ferroviária e admirei-me
da largura dos carros – a Vitória a Minas e a Central do Brasil,
em que eu andara anteriormente, eram, e são até hoje, de bitola
estreita - a BH-Congonhas é de bitola larga.
Surpresa grande tive quando no trem encontrei aquele
menino do papinho no bonde: era o Hugo que também ia para o
Seminário de Congonhas. Hugo e eu sempre fomos ótimos colegas
durante o tempo em que esteve no Seminário.
Em Congonhas, o taxista subiu o imenso morro nos
deixando em frente ao Santuário do Senhor do Bom Jesus, no bom
Hotel Santuário – papai sempre procurava se hospedar em bons
hotéis.
Mamãe gostava que a gente usasse calças bem curtas.
No Seminário, os novos colegas olharam espantados e o Diretor me
mandou trocar de roupa! Até os calções batiam abaixo dos joelhos
e ainda se usava camiseta até para nadar e tomar banho!
Alguns dias depois, o Diretor, na capela, falou os
nomes dos novos seminaristas. Deu-me um ataque de riso quando
escutei o nome do colega do bonde: Hugo Roberto Tocafundo!
Benedito C. A. Franco
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 05/12/2008
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