- Sô Bento
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Em todo Natal mamãe e papai aprontavam um presépio
maravilhoso. O Natal era esperado com uma grande expectativa:
o Menino Jesus, o Papai Noel, o Presépio, os presentes e a
Missa do Galo. Desconhecia-se a ceia.
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Havia um pequeno nó em minha garganta, uma santa
inveja do irmão, José Maurício - loiro de cabelos compridos -
mamãe achava o máximo.
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Sô Bento, negro, paupérrimo, adorava o loiro e nem
tchum pra mim, meio moreno, de olhos bem verdes - os opostos
se atraem!
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Iríamos ganhar os mesmos presentes, o que Papai
Noel traria lá em casa, e o José Maurício mais um, do Sô
Bento. Tínhamos o costume de colocar os sapatinhos nas
janelas, ou escondê-los. Como nosso pai fazia muito mistério
sobre o Papai Noel, não entendíamos como ele conseguia achar
os sapatos que a gente escondia - só falávamos para a mamãe, e
mesmo assim ele descobria! Papai e mamãe assistiam a Missa do
Galo - os meninos íamos dormir bem cedo, na expectativa de
acordar no Natal, procurar e achar o que Papai Noel havia
deixado para nós. Sonhos com o Menino Jesus e alegria total
pela manhã.
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Realmente o Sô Bento era muito pobre, nove filhos,
um deles a Nair, a mais velha, alta e esbelta, muito
simpática, mas não tão bonita quanto. Igualmente simpática, a
mãe, senhora gorda e calada. Nero, único filho homem – o
Bendito Fruto entre as mulheres - estranhava muito este nome.
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Casa composta de quarto e sala, pequeníssimos.
Cozinha minúscula, uma coberta, sem paredes, atrás dos dois
cômodos - tudo coberto com sapé. Eu, menino, matutava como
dormia toda a gente naquele espaço mínimo! Da rua viam-se as
panelas de ferro brilhando de limpas, as de alumínio por lá
não existiam, dependuradas na coberta, ariadas com
areia mesmo, lá em casa também, pois ainda não havia esponja
de aço – bons tempos em que panelas podiam dormir fora de
casa.
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A Vitória Minas, hoje Vale do Rio Doce, passava a
uns duzentos metros com as máquinas tocadas a vapor produzido
pela caldeira a lenha – a maria-fumaça. No trecho mais perto
da casa, passavam acelerando ao máximo por causa da
subida na linha. A aceleração causava muita fumaça e fagulhas
fumegantes de carvão, saídas das chaminés. Numa das passagens
aceleradas, e com o vento a favor, as fagulhas foram dar na
casa do Sô Bento, queimando tudo, até as paredes de
pau-a-pique - disseram-me que mais de uma vez isso aconteceu.
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Lei natural do capitalismo: quanto mais pobre,
mais pobre fica! Hoje a Vale indenizaria, mas antigamente...
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A Nair casou-se. Casou-se bem. O marido, um senhor
simpático, trabalhava com comunicação no aeroporto de Acesita
e depois no de Ipatinga. Mudaram-se para Belo Horizonte.
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Anos depois me encontrei com a Nair em casa, quase
vizinha da Francisquinha, minha irmã, num bairro perto da
Pampulha. Contou-me que, quando chegaram a Belo Horizonte, a
vida era muito difícil e o bairro distante, sem asfalto e com
um mínimo de infraestrutura.
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- Apesar das dificuldades, a vida era boa, Bené, a
gente morava quase na roça. Plantava muitas coisas, e entre
elas, umas samambaias choronas. As sementes caíam num canteiro
na entrada da casa e nasciam mudinhas. As muitas visitas
sempre me pediam. Um dia uma vizinha aconselhou-me a não mais
dá-las e sim, vendê-las:
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- A gente num tá na época de dá nada prus zoutros
não! Vende elas, Nair!
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Conselho dado, conselho seguido. A Nair gostou da
idéia. Terreno grande, foi plantando samambaia e mais
samambaia e, como deu certo, aproveitou o embalo e colocou
outras variedades de plantas.
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A luta e o esforço de todos da casa deram certo.
Comprando mais terreno ao lado, surgiu uma senhora flora.
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A Nair e o marido têm quatorze filhos... Todos com
curso superior!
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Todo Natal lembro-me do Menino Jesus, do Presépio,
dos presentes... e do Sô Bento!
Benedito C. A. Franco
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 27/05/2009
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