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Tríplice
Ditadura
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Ditaduras pra santo nenhum
botar defeito!
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Deixamos a Tatiana com os tios
e padrinhos, o meu irmão Antônio Élcio e a Zezé, e na Brasília,
carro novinho em folha, partimos de Foz do Iguaçu – a minha
esposa Hedda, a Fernanda e eu - atravessando o Rio Iguaçu, numa
balsa, para a Argentina. Para trás uma ditadura e adentramos em
outra duríssima - terrível no substantivo e no superlativo.
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Acabando a travessia,
deparamo-nos com a fiscalização dos papéis – um coronel do
exército exercendo toda a “otoridade ditatorial’. Perguntas as
mais diversas, com cara de mau e rosto parecendo talhado a
machado - da tortura psicológica passamos ilesos.
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Seguindo em direção
a Pousadas, um fenômeno interessante e impressionante: do lado
sul uma nuvem vermelha imensa, tomando o horizonte, e uma
ventania fortíssima. Esperei a maior das tempestades - e veio
mesmo - mas de poeira vermelha.
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Em Pousadas, comi a pizza mais
gostosa de minha vida - pizza de cebola - até hoje não entendi
como se pode fazer uma pizza deliciosa de cebola. Interessante
que outro dia um cliente da loja, conversando com o meu
empregado, estava justamente elogiando essa pizza que ele comeu
por aquelas bandas.
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No interior, três
tipos de moedas: o peso, o peso real e o peso legal - o povo do
interior falava em "mijones de pesos". O povo mais simples das
cidades já tinha se acostumado com o peso mil vezes mais
valorizado, o peso real. E o povo da capital usava o peso legal.
Se você tomasse um refrigerante, poderia ser cobrado em "dos e
meio mijones de pesos", "dos e meio miles pesos reales" ou ainda
"dos e meio pesos legales", dependendo da pessoa com quem você
falasse ou do lugar onde estivesse - por tudo isso dá para
perceber o tamanho astronômico da inflação que grassava no país.
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De Pousadas para Corrientes,
retas e mais retas nas estradas, uma com quarenta e dois
quilômetros, e outras com quase isso. Os postos de gasolina -
nafta para eles - simplórios, todos sem calçamento - paga-se
para encher os pneus. Pode-se encontrar um restaurante digno da
capital e com preços módicos. Nas cafuas ladeando a estrada, de
sapê, paupérrimas, vende-se rapadura de mel - uma delícia.
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Chegando a
Corrientes, a polícia parou-me, pegou um questionário de
dezesseis folhas, fiz questão de contar, e, acintosamente,
perguntou-me não sei quantas minúcias e preenchendo tudo com
as respostas e com a presteza digna de brucutus ditatoriais -
mais de hora em sol escaldante. Naquele norte da Argentina os
termômetros chegam a 42 graus C no verão e a menos dez em certos
invernos.
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Corrientes é cidade alegre,
com jogos disputados no Rio Paraná. Em um restaurante, pedi
vinho e estranharam de eu não solicitar também uma "gasosa" para
misturar com o vinho – costume do argentino. Aliás, quando a
gente pede um café, vem acompanhado de um copo de "gasosa" - uma
água mineral alcalina e super gasosa - daí o nome. Há bombonier
e não boteco por lá. Os "Cafés" são muito alinhados, mesmo no
interior.
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A Fernanda, então com quatro
anos, vendo uma vassourinha, pediu-me para eu lhe comprar. Era
um domingo e fui à missa, com a Fernanda e a vassoura, não a
largava jamais, numa linda igreja antiga. Igreja cheia de fiéis.
Fernanda entrou e foi varrendo o centro da igreja desde a porta
até ao altar-mor, chegando bem perto do padre que fazia o
sermão. Todos olhavam-na compenetrados e sérios e mais séria e
compenetrada estava ela com seu "serviço".
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Saindo de Corrientes,
uma grande ponte. Diziam, com um certo ressentimento, ou
constrangimento, que a ponte era a segunda maior da América
Latina - só menor que a Rio-Niterói. Na Argentina costuma-se
referir-se sempre "ao maior do mundo", em tudo existente por lá.
Em se falando de estradas, para os padrões das brasileiras, as
argentinas são bem simples. No trevo de entrada da ponte, fui
parado por policiais e um oficial convidou-me a ir à guarita, de
metal. Fazia um tremendo calor, mais de 40 graus. Deixei a
Fernanda e a mãe dentro do carro. O oficial pedia-me "bina".
Fiz-me de desentendido e lhe falei não ter "bino". O blá-blá-blá
de "bina" e "bino" durou uns quarenta minutos, dentro da
guarita, em um calor sufocante. Desistiu da "bina" e me mandou
embora. Depois de um pedágio salgado - não só no Brasil a gente
é assaltado nos pedágios (triste consolo, hein!... E aqui não se
sabe quem são os privilegiados donos de pedágios, se houve
concorrência e quem entrou e quem soube da concorrência! Com
certeza o povo nada sabe.). Na saída da ponte, mais policiais
armados até os dentes. Desta vez passaram a mão no rosto e nos
cabelos de minha mulher, humilhando-nos ao máximo. O negócio é
não reagir, advertiram-me antes no Brasil, pois todos de
metralhadoras em punho, apontadas para você e com semblantes de
deboche.
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Na Argentina fui parado,
humilhado, espoliado e dissecado por policiais. Mas, um povo
maravilhoso, educado e culto, compensando em muito as
forças brutas que possuem. Um dos mais belos e diversificados
paises do mundo - não tenho dúvidas.
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Depois de percorrer o Chaco,
para atravessar o Rio Paraguai na divisa para Assunção no
Paraguai, fui à Aduana, onde deveria pagar um dólar pelos papéis
para passar de um país para outro, conforme lei internacional.
Acabei pagando cinqüenta e sete. Quando voltei, minha esposa
conversava com um senhor e sua filhinha brincava com a Fernanda.
Ele veio a mim, indignado:
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- Vamos telefonar para o
quartel general em Buenos Aires e reclamar das barbaridades
sofridas pelo Senhor na ponte de Corrientes.
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- Que nada, moço. Depois de
todos os papéis arrumados, e a um minuto da travessia, vou
arranjar mais encrencas com os ditadores?
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Não se conformou. Nisso chega
da Aduana a esposa. As meninas logo se entenderam e as mulheres
também.
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Entramos rápido na balsa,
cortando o belo Rio Paraguai... encontrando outra ditadura não
menos terrível: o Paraguai do General Stroessner...
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Argentina, um dos paises mais
diversificados e maravilhosos, com um povo educado, culto e
orgulhoso de si e de sua pátria.
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Em poucos dias, três duras
ditaduras: Brasil, Argentina e Paraguai.
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Benedito C. A. Franco
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 12/03/2008
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