A casa dos grandes pensadores
 
 

BENEDITO CELSO A. FRANCO

 
Um levantamento de uma Universidade do Rio de Janeiro indica que cem por cento (100%) das obras de arte no Brasil estão praticamente abandonadas ou com alguma deficiência. Como frequentemente visito o nosso barroco, infelizmente acredito piamente na pesquisa.
 
RIO DE JANEIRO
 
Um centavo
 
Morava em Copacabana e trabalhava no escritório das Lojas Brasileiras, no centro da cidade. Na época de Natal, aproveitavam funcionários do escritório para ajudar nas lojas. Fui convidado para a loja a um quarteirão de minha residência. Aceitei, pois as vantagens eram enormes: almoçava e jantava na loja, muita hora extra e um abono generoso.          
Quando recebi o salário, para mim uma bolada, passei em uma farmácia e comprei um sabonete – dei à caixa uma nota de cinco cruzeiros. No caminho para casa, percebi que a moça do caixa me voltara o troco como fosse de uma nota de dez - cinco cruzeiros a mais. Andava num sufoco e falta de dinheiro.  Pensei com meus botões:- O dono da farmácia é rico e esses cinco cruzeiros a menos não lhe deixarão mais pobre – não voltei para devolver o dinheiro. Poderia ter pensado também:- Esses cinco cruzeiros não cobrirão minhas necessidades!
No quartinho, com telha de amianto e sem laje, tomei banho com o novo sabonete, guardei o dinheiro debaixo do colchão e fui lanchar. Quando voltava, vi alguém saindo de meu quarto e correndo – era um ladrão que levou meu rico dinheirinho. Mais um mês de aperto geral!
Fiz o propósito de nunca mais dar prejuízo a ninguém, mesmo que passasse fome.
Mudei-me para o Catete. Tomei um cafezinho e quando cheguei em casa percebi que o dono do boteco dera-me um centavo a mais de troco. Voltei imediatamente e devolvi. Ao admirado proprietário contei a história do sabonete.
 
Jurandir parou, ao me ver descer a escada do prédio onde eu morava:
- Bené, empresta-me um centavo para eu inteirar a passagem.
O Jurandir desapareceu do prédio onde morava. Depois de seis meses, vem a meu encontro com um centavo na mão:
- Bené, desculpe-me o atraso, pois passei num concurso do BB e fui indicado para trabalhar no interior de Pernambuco e só ontem retornei para visitar os parentes e os amigos. Entregou-me o um centavo.
- Que isso Jurandir, deixe pra lá...
- Bené, é a única dívida que ainda tenho e ela não me sai da cabeça. Uma dívida de um centavo, ou de um milhão, é uma dívida! Quem rouba um centavo é um ladrão... quem rouba um milhão é um ladrão. Não há diferença na qualidade, apenas na quantidade.
 
 
Que ojos!
 
O professor de espanhol, mexicano, em um colégio onde estudei, admirava, e muito, a cantora Maysa Matarazzo; em todas as aulas não se cansava de repetir: “Que ojos! Ojos de Maysa!! Que ojos!”
Neste mesmo colégio, no Rio de Janeiro, o professor de português era o regente do Coro do Orfeão Português. Convidou-me a fazer parte dos cantores. Os ensaios no salão nobre do Orfeão, um prédio antigo, mais parecido com um pequeno castelo – uma suntuosidade!... Apresentávamos nesse salão e uma vez fomos apresentar em Teresópolis, em um de seus luxuosos hotéis. Quando comecei a estudar química tive de abandonar o Orfeão.
Benedito C. A. Franco

Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 07/01/2010