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“...Nas Índias, os governantes chamam-se sátrapas (Sat
= assaz e rapio = eu roubo), porque costumam roubar
assaz. E este assaz é o que especificou melhor S. Francisco
Xavier, dizendo que conjugam o verbo rapio por todos os
modos. O que eu posso acrescentar, pela experiência que tenho,
é, que não só do cabo da Boa Esperança para lá, mas também das
partes daqui, se usa igualmente a mesma conjugação. Conjugam
por todos os modos o verbo rapio;
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- porque furtam por todos os modos da arte, não
falando em outros novos e esquisitos, que não conheceu Donato,
nem Despautério...” – Pe. Antonio Vieira.
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NB.: ...já pensou se Vieira conhecesse Brasília!...
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Vieira
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Cheguei ao Rio na exata hora em que a seleção brasileira de
futebol passava pela Avenida Brasil, vinda da Suécia, onde foi
Campeã do Mundo de Futebol - 1958.
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O Presidente da República era o JK; a televisão dava os
primeiros passos e os bondes ainda corriam; carro só para os
muito ricos; a eletricidade era em 50 Hertz e não existiam a
Ponte Rio-Niterói, Itaipu, Três Marias, nem fábricas de carro
ou a Usiminas e a cidade de Brasília no início de sua
construção; o leite, em garrafas de vidro, entregue em
engradados de arame colocados, pelo lado de fora, nas portas
dos edifícios - e ninguém roubava. Uma das boas coisas era
escutar o Paulo Autran ler as crônicas do Carlos Drumond, pelo
rádio, depois do Angelus, assim como os debates dos
Deputados na Câmara Federal. Todo mundo lia jornais!- Jornal
do Brasil, O Globo, Correio da Manhã, O Dia, A Noite, Jornal
dos Esportes, Tribuna da Imprensa...
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Morei em Copacabana e no Catete.
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Trabalhava ao lado da Rádio Nacional, no auge da fama, na
Praça Mauá, perto da Rodoviária e da Imprensa Nacional. De
quando em vez visitava a Imprensa para matar a curiosidade
sobre o que editava - acabei descobrindo a obra completa do
Ruy Barbosa; com os preços módicos, comecei a comprar um
volume de cada vez, até adquirir toda a coleção – uns trinta
volumes. Mais tarde dei essa coleção para alguém e não consigo
me lembrar a quem.
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Aos treze anos, no internato, conheci algo sobre os Sermões do
Padre Antônio Vieira, através de uma Antologia recebida no
segundo ano do ginásio - sexta série de hoje. Vieira
cativou-me de cara - sempre que lia, aqueles pedaços de
cultura deixavam-me maravilhado.
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Pouco tempo depois de estar no Rio, na Cinelândia, centro do
Rio, a primeira Feira do Livro na capital do país.
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Visitando a Feira, deparei-me com a coleção dos Sermões do
Padre Antônio Vieira - quinze livros em cinco
volumes. Olhei, admirei e namorei. Tomei algumas informações
com o vendedor e prometi-lhe voltar no dia seguinte para
comprá-la - faltava-me o dinheiro no momento.
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Consegui o dinheiro. Ganhava menos de dois salários mínimos,
mas representava uns dois mil reais de hoje. Apesar de
estarmos hoje em um governo do PT – presenteia os banqueiros
com os juros mais caros do mundo e maltrata os aposentados com
quatro por cento (será que o Lula – o inimigo dos
aposentados... - e os ministros receberam só isso também?); e
ainda deixa os bancos, as telefônicas e as multinacionais nos
assaltar (e o pior... legalmente!); vangloria de estar bem com
os grupos financeiros, enviando-lhes tudo que nos açambarca, e
não se envergonha de descumprir os compromissos conosco, o
povo que tanto acreditou nele. Vejam, e sofram as estradas, a
saúde e a educação - e nem falemos dos impostos
exorbitantes, a cada dia maiores e o retorno a cada dia menor!
Acorde Lula-la-la!... Ou acordemos nós?... Tiremos o bumbum da
cadeira! Que diferença do JK...
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Voltemos à Feira. À noite, estava lá folheando um dos volumes
dos Sermões. Olhando para um lado, notei a aproximação de um
grupo de jovens, volteando um respeitável senhor de terno
escuro e gravata. O elegante senhor parou em minha frente,
mirou a mim e ao livro em minhas mãos, com um pequeno sorriso
e pedindo licença, tomou-o e o abrindo:
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- Está gostando do livro?
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- Pretendo comprar a coleção...
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Dirigindo-se a mim e aos jovens:
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- Quem lê Vieira, sabe português. Quem lê muito
Vieira, sabe muito português. Quem lê tudo de Vieira, sabe
tudo de português. Muito prazer! Apertando-me a mão:-
Sou o Professor Pedro Calmon. Adquira-a. Vale a pena, pois é
um tesouro não só de nossa língua, mas da literatura
universal. Vieira, de erudição enciclopédica, o maior orador
de todos os tempos.
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E se foi... rodeado dos jovens. Pareciam embevecidos com
aquele senhor.
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O Professor Pedro Calmon era Reitor da Universidade Federal do
Brasil, no Rio de Janeiro. Professor, político, historiador
biógrafo, ensaísta e orador - pertencia à Academia Brasileira
de Letras, cadeira n. 16. Há um grupo escolar estadual, em
Coronel Fabriciano, com seu nome.
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Padre Antônio Vieira (1608-1697), jesuíta, orador sacro e
missionário português. Viveu no Brasil cinqüenta e dois de
seus oitenta e nove anos. Prestou serviços diplomáticos ao
governo de seu país e deixou cartas que se constituem no maior
monumento do gênero em nossa língua. Em sua obra coexistem
elementos barrocos, místicos, heréticos e nacionalistas, em
uma linguagem rebuscada e riquíssimos recursos estilísticos,
léxicos e sintáticos. Sua obra completa abrange cerca
de duzentos sermões, mais de quinhentas cartas e muitos
estudos políticos e literários.
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Os Sermões... meus livros de cabeceira...
Benedito C. A. Franco
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 04/12/2009
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