A casa dos grandes pensadores
 
 
 

CARLOS ALBERTO MELO

 

ESMOLA x CARIDADE

A fim de que possamos ter um entendimento melhor sobre o assunto, permita-me citar o que consta no Dicionário Aurélio sobre estas duas palavras: 1) Esmola é aquilo que se dá ao necessitado; 2) Caridade é uma das virtudes teologais, e, é o amor que move nossa vontade, na busca efetiva do bem de outrem e procura identificar-se com o amor de Deus.

O Premio Nobel da Paz de 2006, foi concedido ao Sr. Muhammad Yunus, conhecido como banqueiro dos pobres, face à filosofia que implantou em ajudar às pessoas a procurarem seu próprio sustento. A idéia da Academia, ao conceder o prêmio, é que a verdadeira paz só existirá quando todos os homens puderem suprir suas necessidades.

Certo dia o Sr. Yunus descobriu que os bancos não emprestavam dinheiro aos mais pobres, então ele fundou em 1983 um banco, “Grameen Bank”, cuja especialidade era emprestar pequenas quantias às pessoas mais necessitadas, principalmente mulheres, a fim de que essas pudessem adquirir instrumentos de trabalhos, para poder ter seu auto-sustento, assim, ele financiou: agulhas, linhas e tecidos, pequenas máquinas de costura, financiamento da irrigação e da pesca, etc, e o interessante é que a inadimplência do Grameen é quase zero.

Outra teoria do Sr. Yunus é que ele não dá esmola a um mendigo, cego ou aleijado, ou mesmo a uma mãe com um bebê nos braços, quando lhes estendem a mão em busca de um trocado; sobre isto ele declarou em 2004, numa entrevista: “Eu me sinto mal, às vezes, eu me sinto horrível, por negar algo a essas pessoas, mas eu me contenho, nunca dou nada a elas”.

Em nossa Igreja, o Padre, em algumas de suas homilias, já enfatizou esta mesma teoria, de que precisamos ter a coragem necessária para negar a esmola nas ruas, mas antes precisamos procurar a Igreja ou mesmo uma instituição séria, que promova uma melhor distribuição entre os que possuem e os que necessitam.

O Apóstolo Paulo (1Cor 13, 13)  coloca que “a caridade é a maior das virtudes”, e  também no versículo 3 do mesmo Capítulo, que “se desse toda fortuna e não tivesse caridade nada seria”. Por outro lado em Mt 6, 3, Jesus diz que “quando deres esmola não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita”, ou seja, devemos esmolar com total desprendimento, como sendo uma coisa natural, sem estar pensando em recompensa ou muito menos em se livrar de um problema. Por outro lado São Pedro (1Pd 4,8) diz textualmente:  “tende ardente caridade uns para com os outros; porque a caridade cobrirá a multidão de pecados”, portanto na hora de fazer a caridade, não precisamos nos preocupar em dizer ou não ao mundo ou a Deus o que fizemos, porque isto é algo intrínseco. A partir desses textos entendemos que quando damos esmola, querendo nos livrar do pedinte, ou ainda, do limpador de pára-brisa incômodo, ou porque não gostaríamos de estar naquela situação, não estamos fazendo caridade, estamos possivelmente, querendo nos livrar do “problema”, e viciando o ser humano e pecando, pois indução ao vício pode ser um pecado, pois a verdadeira caridade estar em ajudar o irmão a suprir suas próprias necessidades.

A partir do que vimos acima, não dê esmolas na rua, mas sob nenhuma hipótese deixe de contribuir para as diversas pastorais da Igreja ou para alguma instituição séria, mas se é para não fazer isto, é melhor continuar dando esmola e como cita nosso Padre e a música nordestina: “matando de vergonha ou viciando o cidadão”.

Como exemplo de uma esmola indevida, citamos o que é feito equivocadamente, por pessoas, nas ruas à noite ou nos domingos e feriados, quando passam num carro, distribuindo donativos, e com isto, atraem dezenas de indigentes, de outros lugares, para aquela área, os quais trazem filhas e filhos menores, a partir da sexta-feira, para melhor se posicionarem, dormindo ao relento, sob as intempéries e sujeitando os menores a tarados e narcotraficantes, sem contar o aumento no número de assaltos na área. Se estas pessoas têm condições de fazer caridade e não confiam em instituições, não somos contra, mas, porque não fazer um cadastro desses carentes, verificarem suas aptidões e fornecer, nos lugares em que estes vivem, os materiais necessários para que possam trabalhar e se for o caso uma cesta básica de alimentos, para os primeiros dias.

Finalmente, é bom lembrar que esmola e caridade, nada têm a ver com o dízimo ou a oferta que você faz durante as Missas, na hora do Ofertório, para a continuação da Casa de Deus.

 
Carlos Alberto Melo
 
Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 28/05/2007