A casa dos grandes pensadores
 
 
 

CARLOS ALBERTO MELO

 

PROCURANDO JESUS

Há cerca de dez anos, em 1995, numa cidade do interior de Pernambuco, o gerente de um banco local conheceu um dentista, pessoa de classe média alta. Sua esposa era uma funcionária da Prefeitura e ele, além do atendimento no consultório, era dentista da Prefeitura.
O único filho do casal cursava medicina na Universidade Federal de Pernambuco e junto com os pais, anualmente, fazia uma viagem de férias ao exterior, ou ao sul do País, para passeios e atualização dos estudos, através de participação em congressos e palestras.
 O dentista, além de casas alugadas, tinha uma granja, com plantação de laranjeira e coqueiro, onde também, criava bode e vaca leiteira.
A granja, graças ao administrador, conhecido como Antonio da Vaca, era auto-sustentável e ainda dava lucros ao dentista, que ia lá, geralmente em fins de semana, para tomar banho de piscina ou riacho com a família e amigos, tomar o uísque importado de que tanto gostava e pegar o dinheiro das vendas do leite, do queijo e das frutas.
Naqueles fins de semana, a esposa do administrador, que ajudava o marido nos cuidados da granja, desdobrava-se na limpeza dos cômodos da "casa grande" da propriedade e no preparo da alimentação, para deixar satisfeitos o dentista e seus companheiros.
O dentista era um homem temente a Deus e tudo que pretendia era viver por muito tempo, aproveitando bem a vida e, quando viesse a morrer, ir direto para o Céu, como sempre afirmava.
 Ele e a esposa eram católicos fervorosos, aos domingos não faltavam à Missa e chegavam cedo à Igreja. Ele fazia questão de proclamar em todos os lugares que era um cristão temente a Deus, cumpridor dos mandamentos e bastante caridoso, razão por que, nas Missas, fazia questão de dar a oferta de maior valor.
Por outro lado, dizia-se altamente correto, bajulava-se de fazer todas as coisas certinhas, e dizia-se também cumpridor de suas obrigações materiais dentro do que era preconizado pela lei.
Assim, a empregada doméstica da sua residência recebia o salário mínimo, com o desconto do valor do INSS que ele recolhia corretamente todo o dia determinado, o mesmo acontecendo com o Administrador e os outros dois empregados da granja, dos quais, também, descontava um percentual referente ao alimento e moradia, tudo fazendo conforme as determinações legais.
O dentista, porém, em toda cidade era conhecido como sovina, bastando dizer que no consultório dele não havia secretária ou assistente; para ser atendido o paciente, quando chegava, pegava uma ficha numerada, que havia num "espeto" em cima da mesa e esperava o próprio dentista chamar.
O dentista trabalhava no consultório apenas com pagamento em dinheiro e, na maioria das vezes, limitava-se a medicar antiinflamatórios, obturar ou arrancar dentes, apesar de ser um profissional competente e que procurava sempre se atualizar, o que fazia freqüentando anualmente cursos e congressos, quando aproveitava para levar a família para passear.
Dos pacientes ele cobrava um valor um pouco menor que os outros três dentistas da cidade, principalmente porque pouco ou nada investia no consultório que, além de não ter secretária, não oferecia televisão, poltronas de espera confortáveis ou qualquer outro beneficio.
No seu atendimento, após um pré-exame, ele informava ao paciente quais seriam os procedimentos e quanto seria o valor a ser pago. Se o paciente não tivesse nenhuma condição de pagar, ele cobrava apenas a consulta e o mandava procurá-lo no ambulatório da Prefeitura, onde nada pagaria, claro, entrando na fila normal de espera, sendo esta outra razão pela qual ele era o mais procurado, pois muitos dos pacientes pensavam que, pagando aquela consulta, seriam melhor atendidos no ambulatório odontológico municipal.
O gerente do banco, onde o dentista mantinha sua conta e aplicações, fazia três anos que trabalhava na cidade e estava sendo transferido para o Recife. Era um bom funcionário, perto de aposentar-se, muito querido por todos os empregados, e considerado como um líder, sincero e objetivo; na vida espiritual, um cristão humilde e verdadeiro católico, que acima de tudo preconizava o amor a Deus e ao próximo.
O Gerente sentia-se incomodado pelas conversas do dentista que todas as vezes que ia ao banco, fazer seus depósitos de poupança ou aplicações, ficava vangloriando-se de ser um cristão melhor que qualquer outro e repetia a estória de que sempre dava a maior oferta na Igreja, geralmente cinco reais, e quando percebia que havia outras cédulas de cinco reais na cestinha de ofertas, fazia questão de colocar uma de dez reais, que na cidade tinha pouca circulação, pois essa cédula havia sido lançada, pelo Banco Central, há menos de um ano, assim todos notariam que sua oferta estava entre as maiores.
Além disso, constantemente repetia que era um homem caridoso e acima de tudo honesto, sempre contando a mesma conversa, que pagava o valor justo a todos seus empregados, e vangloriando-se, todas as vezes, que tinha certeza de que quando morresse iria para o Céu. Ele acreditava tanto nesta sua asserção, que ficava nervosíssimo e bravo, se alguém ousasse contrariá-lo naquelas suas afirmativas, mesmo se a pessoa o fizesse em tom de brincadeira.
Era uma sexta-feira e o Gerente estava sendo transferido de agência, contra sua vontade, em face de sua idade e tempo de serviço, sendo aquele seu último dia naquela unidade, uma vez que o novo gerente assumiria na próxima segunda-feira. 
O dentista entrou, como fazia todas as sextas-feiras, sentou-se na cadeira na frente da mesa do gerente, entregou um pacote de dinheiro para depósito à secretária da gerência, mais uma vez passando na frente de todos os outros clientes, pediu água, e, dirigindo-se ao gerente, disse que lamentava a sua saída, que gostaria de fazer algo por ele, mas se não fizesse nesta vida, faria na outra, já que quando morresse iria para o Céu e de lá poderia fazer alguma coisa pelos amigos.
O gerente, que não agüentava mais ouvir aquela conversa, que era a mesma de toda semana, já há três anos, resolveu dizer o que realmente pensava, levando em consideração que se perdesse o cliente o próximo gerente o conquistaria de novo.
Tomou um gole de água, olhou nos olhos do dentista e sem deixá-lo interromper, falou:
- Doutor, o senhor não vai poder fazer nada por mim na outra vida, porque o senhor não segue Jesus e não entrará no reino do Céu; veja bem, o senhor se acha ótimo, mas D. Maria, sua empregada de tantos anos, que sempre cuidou bem de sua casa e de seu filho, permitindo que o senhor e sua esposa trabalhassem e juntassem o dinheiro que hoje têm, esteve esta semana aqui, pedindo dinheiro para comprar uns livros da filha, porque foi lhe pedir e o que ela recebeu do senhor foi um sermão; o senhor disse-lhe que ela deveria guardar todo mês um pedacinho do salário, como se a miséria que o senhor paga a ela, que não chega a ser dez por cento do que o senhor deposita na sua poupança todo mês, desse para ela pagar o aluguel do barraco, pagar água e luz, comprar remédios, roupas e sapatos, alimentar a filha e ainda guardar para as necessidades; todos sabem que o senhor não dá esmola e não ajuda ninguém, sob a alegação de que todos deveriam seguir seu exemplo e trabalhar; o único auxílio que o senhor dá, é em  média R$ 30,00 por mês para a Igreja, e ainda considera isto como se fosse um pagamento a Deus, por tudo que Ele lhe permite ter; porém se o senhor não fechasse os olhos para a Bíblia e para os ensinamentos de nossa Igreja,  veria que suas ofertas não valem quase nada, bastaria ler os ensinamentos sobre o dízimo ou mesmo a parábola do servo que teve sua dívida perdoada pelo seu senhor e não perdoou a dívida de seu empregado; seu caseiro administra sua granja, dando-lhe um bom lucro e o senhor tem a coragem de descontar da porcaria do salário dele, um valor de aluguel e alimentação, não se lembrando sequer que a esposa dele trabalha nos fins de semana para o senhor, sua família e seus amigos, e nada ganha, e o senhor ainda se acha um homem bom? A grande maioria de suas pobres vítimas do consultório são quase todos banguelas, porque o senhor, para não perder tempo fazendo neles um tratamento digno, extrai-lhes os dentes e os coitados continuam procurando-o sob a ilusão de que quando não tiverem dinheiro o senhor vai atendê-los pela Prefeitura, o que deveria ser visto como obrigação e não como favor; realmente, desse jeito, quando o senhor morrer jamais chegará junto de Deus, pois vai direto para o inferno.
Todos os clientes e funcionários do banco que estavam ao redor ouviam atônitos e intimamente satisfeitos, era tudo o que eles queriam dizer ao dentista e nunca tiveram coragem; quando se viraram para o dentista notaram que ele estava estupefato, ficando vermelho e tremendo e quando notou que estavam olhando para ele, partiu para cima do gerente, tentando agarrá-lo pela gravata, derrubou os objetos que estavam em cima da mesa e gritou com toda raiva e frustração de quem ouviu as verdades que nunca pensou que ouviria:
- Gerentezinho mentiroso, você tá saindo daqui por incompetência e quer jogar seus problemas num homem santo como eu, vou acabar com você!
Apesar do aparecimento da turma do deixa disso, o dentista não se acalmava e tentava a todo custo agarrar e bater no gerente. Este, então, pegou sua bolsa, saiu da agência, ligou para o futuro gerente contando-lhe o caso e nunca mais voltou à Cidade.
Cerca de dez anos depois, o ex-Gerente, já aposentado, passeava pela frente da Igreja de seu bairro, onde se realizava um casamento, parou um instante para observar algumas pessoas que ele conhecia, mas não lembrava de onde, quando uma mão o segurou pelo braço e então ele se virou e reconheceu o dentista, quando ele lhe disse:
- Gerente! entre um pouco aqui na Igreja, venha rever alguns de nossos amigos, há muito tempo eu queria falar com o senhor e não sabia onde encontrá-lo.
O ex-gerente ficou meio receoso, então o dentista notou e disse:
- Antes de tudo, me dê um abraço, me desculpe pelo passado e me deixe falar sobre as pessoas deste casamento. A noiva é a filha de Dona Maria, que continua trabalhando em nossa residência, só que já há algum tempo ela ganha dois salários mínimos e não tem mais despesas de aluguel, pois lhe dei uma casa; quanto à filha dela, que está casando hoje, eu sou o padrinho e estou aqui fora para entrar na Igreja com ela, já que o pai é desconhecido. Depois que contei a briga que tive com o senhor, naquele dia, minha esposa providenciou para que a menina terminasse o curso médio, depois pagou um cursinho,  ela passou no vestibular e daqui a dois anos terminará o curso de odontologia e já trabalha no meu consultório há alguns anos. O noivo dela é daqui da capital, é médico, foi contratado pela nossa Prefeitura e está abrindo um consultório lá, em nossa cidade, numa das casas que eu tenho no Centro. Quanto ao meu Consultório, logo depois que o senhor saiu da cidade, fiz uma sala de espera muito boa e não aumentei os preços, passei a cuidar melhor dos dentes dos meus pacientes e quando tenho que fazer alguma extração envio o cliente para um protético, que tem um convênio comigo, gastei um dinheirinho, mas em conseqüência a clientela aumentou tanto que vi a necessidade de ter uma pessoa me ajudando e coloquei a filha de Dona Maria, que nos últimos dois anos, por causa do curso de odontologia, vai ao consultório apenas dois ou três dias por semana; então tivemos que contratar uma outra moça, que é sobrinha do Antonio da Vaca, o administrador lá da granja; olhe ele ali sentado naquele banco, de paletó marrom, todo feliz, fiz um acordo com ele e além do salário eu lhe pago um por cento de tudo que ele vende na granja; e tem mais, registrei a esposa dele como empregada lá da casa da granja. Quanto à Igreja, não sei mais se sou o que coloca o maior valor na sacola da coleta, mas tenho contribuído de acordo com as minhas possibilidades; inclusive, depois que me aposentei da Prefeitura, me juntei com outras pessoas da Paróquia e fundamos um centro comunitário e uma creche, mas o interessante de tudo isto é que estou cada vez melhor de vida, pois, em vez de viajar uma vez por ano, estou viajando duas vezes. Quanto ao meu filho, está se dando muito bem, com uma clínica que montamos aqui na capital para ele; olhe lá na frente, ele com a esposa e meus dois netinhos.
O dentista com a voz embargada e os olhos lacrimejando continuou:
- Esta tem sido minha nova vida seu gerente e agora estou realmente venturoso, só me faltava encontrá-lo para dizer que o senhor, em grande parte, é o responsável por toda esta minha felicidade e eu lhe sou muito agradecido pelo que me disse naquele dia.
Então, estendendo a mão para o gerente e rindo, finalizou em tom de brincadeira:
- E agora continuando nossa conversa de dez anos atrás, o que o senhor me diz?
O gerente, profundamente emocionado e dando um longo abraço no dentista disse:
- Eu diria que o senhor está procurando Jesus e acredito que está trilhando o caminho certo; se o nobre dentista, a quem eu desejo uma vida muito longa, morrer primeiro que eu, quando chegar ao Céu e encontrar o Mestre, peça a Ele por mim.

Carlos Alberto Melo
 
Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 25/04/2007