- Um Adeus
Para Minha Mãe
- Cerca das quatro
horas da manhã, do dia 03/07/2008, toca o telefone, meu irmão
informa que está indo ao hospital, em cuja UTI mamãe entrara
dois dias atrás, para autorizar um procedimento, por solicitação
do médico. No dia anterior, nós havíamos visitado-a durante os
30 minutos permitidos, tomando conhecimento que a infecção
pulmonar havia aumentado e possivelmente ela seria intubada.
Cerca das seis horas da manhã, meu irmão liga do hospital e
informa que mamãe havia falecido às 3h30m, por infarto agudo do
miocárdio.
- Chamava-se Francisca
de Melo Silva, nasceu em 06 de novembro de 1920, seus 87 anos,
festejamos em nossa casa, junto com os outros 3 filhos (José,
Cláudio e Gilberto), tivera uma filha que faleceu ainda bebê.
Nessa festa, a ultima que passamos juntos, ela cantou e foi
filmada por meu filho, assim, esse momento de alegria ficará em
nossa vista para sempre.
- Com certeza fui o
filho que “deu trabalho”. Graças a Deus tive um pai super
enérgico e uma mãe super protetora. Jamais ela deixou de contar
a papai as coisas erradas que eu fazia, mas, jamais deixou de me
proteger nas horas das surras, nem de me confortar após elas.
- Era totalmente
despojada e tinha um coração maior que seu poder de ajuda,
lembro que papai sempre reclamava disto. Quando cresci e tive
condições, sempre estava a me pedir auxilio para algum conhecido
dela e por mais que eu a alertasse que estava sendo explorada,
jamais deixou de ajudar. Foi nascida no interior de Vitória de
Santo Antonio, ainda moça veio para o Recife, mas não deixou os
costumes e as crenças herdadas de meu avô. Rezava espinhela
caída, osso trilhado, dor de dente, etc. Alguns dos que foram
rezados dizem que ficaram bons.
- Constantemente sua
casa vivia com pessoas de sua terra e de Surubim, berço de
papai. Quando vinham fazer algum tratamento de saúde nos
hospitais, ficavam hospedados na nossa casa, no bairro de Santo
Amaro, onde nasci. Tinham sempre a companhia de mamãe, que
também fazia curativos e aplicava as injeções prescritas pelos
médicos e às vezes até por ela. Cuidava bem de qualquer pessoa
que hospedasse. Certa vez, fui com minha família passar um ano
no Acre e precisei deixar a filha de uma cunhada, que nós
criávamos, em casa de mamãe durante um ano. Disse minha “filha
bastarda” (como ela se chama) que jamais, esquecera o tratamento
dado a ela por mamãe e papai durante aquele ano.
- O filho a quem ela
mais procurou ajudar, era o mais novo, por ser o menos
afortunado. É o único que tem filhos ainda crianças e
conseqüentemente seus netos preferidos, havendo morado com eles,
após a morte de papai, os últimos anos de sua vida.
- Era categórica e não
usava de meias verdades, falava o que pensava de forma prática e
direta, dizendo que não entendia, porque se a pessoa era gorda
nós preferíamos calar e não alertá-la para que se cuidasse.
Assim era minha mãe.
- Católica praticante,
herdei dela a crença que hoje professo e na qual sou feliz.
- No filme Quatro
Casamentos e um Funeral, foi recitado o poema “Funeral Blues”,
do escritor e poeta W.H.Auden, inspirado no qual, me atrevo a
finalizar esta crônica em homenagem a minha mãe, com a seguinte
versão:
- “Parem os relógios, calem o
telefone, impeçam o cão de latir, que silenciem os pianos e com
um toque de tambor, tragam o caixão e que venham atrás os que
choram.
- Que os aviões, voem gemendo em
alvoroço e escrevam no céu a mensagem: ela está morta.
Ponham laços pretos, em luto, no pescoço das pombas brancas. Os
policiais usem luvas pretas de algodão.
- Ela fez parte de meu norte, sul,
leste, oeste, enquanto viveu. Minha semana de trabalho e meu
domingo. Meu meio dia, minha conversa, minha canção. Quem julga
existir um amor eterno, como o de mãe ou de filho, se engana,
não mais que de repente, o amor se transforma em saudade.
- Espantem-se! Para ela, foi hora
de apagar estrelas, esconder a lua, desmontar o brilho do sol,
jogar fora as florestas, despejar o mar. O céu, deverá se abrir
para recebê-la, triunfante, pois dela aqui ficará só a saudade
doravante”.
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- Carlos
Alberto Melo
-
Advogado
OAB/PE 11576.
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- Publicação:
www.paralerepensar.com.br
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15/07/2008
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