Sem eco
Falar de relato real é sempre difícil porque somos perseguidos
pelo fantasma do risco de minimizar o sofrimento do outro.
Porém ao escolher relatar historia de mulheres que têm seu
grito contido, sem eco, penso que irei esbarrar na historia de
cada uma de nós.
Estou falando neste momento de mulheres, mães de filhos
especiais, não que os filhos não sejam todos especiais, mas
estou falando daqueles que por desejo divino, desencontro na
fecundação, gravidez indesejável, ou tantos outros motivos,
tiveram filhos com necessidades especiais.
Transformam-se em farrapos humanos, pessoas sem desejo, sem
personalidade, um amontoado de nada.
Desconfiam da bondade alheia, porque geralmente são criticadas
com olhares de grande recriminação.
É-lhes muito difícil dar o primeiro passo, para a procura de
ajuda, tratamento, orientação, diagnostico, enfim cuidar dos
seus filhos especiais como eles merecem.
A primeira reação de algumas é negar o problema, esconder o
filho de todos, adiando a busca da investigação o mais
possível.
Porém na procura de saber o que deu errado, a única certeza
plausível é de que estão sendo punidas. Mas por quê? Isto não
conseguem responder e nem ter a resposta.
Mesmo assim, é sempre muito difícil encarar os desafios que a
vida lhes reservou, mantém em muitos momentos um olhar de
desdém, o nariz às vezes empinado, ou então a depressão, a
vergonha as imobilizam, ficando sem defesa.
Para suportar as cobranças e as dúvidas, abandonam suas
próprias vidas, seus desejos, seus sonhos passam a se dedicar
exclusivamente a este filho, aí, virão leoas!
Saem do extremo da negação para as aceitações agressivas,
desconfiadas para entender, por exemplo, o entrelaçar das suas
mãos às de outrem, possibilitando um caminho menos sofrido.
Enfrentam tudo sozinha.
A certeza da critica as deixam com o grito preso na garganta
sufocado com todos os choros, chorados, escondidos, a
incerteza fragmenta seus pensamentos as transformando em
carrascos de si, mesmas.
Ao assumirem o problema, pergunta incômoda e torturante
insiste em não sair de suas mentes: Porque eu? Porque meu
filho? E é assim com esse espírito que elas reconhecem o fruto
de um amor que nasceu com defeito, nasceu estragado.
Quantos planos e realizações tinham construído para aquele
filho! Assumem para si todo o ônus deste fruto que não deu
certo. Inacreditável protegem seus homens!
Simplesmente mulheres, que antes de serem mães eram ingênuas
garotas, vaidosas, femininas, sensuais, desejosas de prazer e
de exclusividade. Transformam-se em um ser desconhecidos, por
conseguinte sem vida própria, não sabem mais quem são.
Mulheres, mães de crianças, adultas, com síndromes das mais
diversas. Correm de um lado para o outro atrás dos direitos
para seus filhos. Uma tarefa árdua! Dando murro em ponta de
faca para colher apenas algumas migalhas. Não desistem!
Dão a volta por cima! Deixam as lágrimas de lado, o grito
sufocado sem eco, tornando-se voz que passa a ecoar por todos
os lados, mulheres desbravadoras. Lançam mão de tantas
bandeiras, conquistando dia-a-dia o reconhecimento primeiro de
si mesmas, redescobrindo sua feminilidade, sua grandiosidade
diante dos mais difíceis obstáculos que a vida pode lhes
reservar, verdadeiras bandeirantes, destemidas e sabedoras a
que vieram preparar este filho para sua independência, para a
vida!
Meninas, que aprendem muitas vezes sozinhas e muito jovens
como ser mulher, depois mais sozinhas ainda,o que é ser mãe.
Sabem muito cedo que na vida, mesmo quando estão no meio da
multidão as maiores conquistas e decisões são solitárias com o
testemunho apenas de sua consciência.!
Mulheres! Fonte de luz, alicerce da vida! Bravas guerreiras!
Christina Hernandes
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