A casa dos grandes pensadores
 
 

CHRISTINA HERNANDES

 

 

Sem eco

Falar de relato real é sempre difícil porque somos perseguidos pelo fantasma do risco de minimizar o sofrimento do outro. Porém ao escolher relatar historia de mulheres que têm seu grito contido, sem eco, penso que irei esbarrar na historia de cada uma de nós.
Estou falando neste momento de mulheres, mães de filhos especiais, não que os filhos não sejam todos especiais, mas estou falando daqueles que por desejo divino, desencontro na fecundação, gravidez indesejável, ou tantos outros motivos, tiveram filhos com necessidades especiais.
Transformam-se em farrapos humanos, pessoas sem desejo, sem personalidade, um amontoado de nada.
Desconfiam da bondade alheia, porque geralmente são criticadas com olhares de grande recriminação.
É-lhes muito difícil dar o primeiro passo, para a procura de ajuda, tratamento, orientação, diagnostico, enfim cuidar dos seus filhos especiais como eles merecem.
A primeira reação de algumas é negar o problema, esconder o filho de todos, adiando a busca da investigação o mais possível.
Porém na procura de saber o que deu errado, a única certeza plausível é de que estão sendo punidas. Mas por quê? Isto não conseguem responder e nem ter a resposta.
Mesmo assim, é sempre muito difícil encarar os desafios que a vida lhes reservou, mantém em muitos momentos um olhar de desdém, o nariz às vezes empinado, ou então a depressão, a vergonha as imobilizam, ficando sem defesa.
Para suportar as cobranças e as dúvidas, abandonam suas próprias vidas, seus desejos, seus sonhos passam a se dedicar exclusivamente a este filho, aí, virão leoas!
Saem do extremo da negação para as aceitações agressivas, desconfiadas para entender, por exemplo, o entrelaçar das suas mãos às de outrem, possibilitando um caminho menos sofrido.
Enfrentam tudo sozinha.
A certeza da critica as deixam com o grito preso na garganta sufocado com todos os choros, chorados, escondidos, a incerteza fragmenta seus pensamentos as transformando em carrascos de si, mesmas.
Ao assumirem o problema, pergunta incômoda e torturante insiste em não sair de suas mentes: Porque eu? Porque meu filho? E é assim com esse espírito que elas reconhecem o fruto de um amor que nasceu com defeito, nasceu estragado.
Quantos planos e realizações tinham construído para aquele filho! Assumem para si todo o ônus deste fruto que não deu certo. Inacreditável protegem seus homens!
Simplesmente mulheres, que antes de serem mães eram ingênuas garotas, vaidosas, femininas, sensuais, desejosas de prazer e de exclusividade. Transformam-se em um ser desconhecidos, por conseguinte sem vida própria, não sabem mais quem são.
Mulheres, mães de crianças, adultas, com síndromes das mais diversas. Correm de um lado para o outro atrás dos direitos para seus filhos. Uma tarefa árdua! Dando murro em ponta de faca para colher apenas algumas migalhas. Não desistem!
Dão a volta por cima! Deixam as lágrimas de lado, o grito sufocado sem eco, tornando-se voz que passa a ecoar por todos os lados, mulheres desbravadoras. Lançam mão de tantas bandeiras, conquistando dia-a-dia o reconhecimento primeiro de si mesmas, redescobrindo sua feminilidade, sua grandiosidade diante dos mais difíceis obstáculos que a vida pode lhes reservar, verdadeiras bandeirantes, destemidas e sabedoras a que vieram preparar este filho para sua independência, para a vida!
Meninas, que aprendem muitas vezes sozinhas e muito jovens como ser mulher, depois mais sozinhas ainda,o que é ser mãe.
Sabem muito cedo que na vida, mesmo quando estão no meio da multidão as maiores conquistas e decisões são solitárias com o testemunho apenas de sua consciência.!
Mulheres! Fonte de luz, alicerce da vida! Bravas guerreiras!

Christina Hernandes

Publicação: www.paralerepensar.com.br - 03/09/2008