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Pesadelo de Peso
Ela se olhou no espelho.
Suspirando, não demonstrou ânimo, ao visualizar seu reflexo. A
falta de esperança era total.
Engordara vários e vários quilos ("mas como, diachos, se tinha
feito a dieta da lua, da água, do sol, todas ao mesmo tempo?!").
As calças já não lhe cabiam mais e os sutiãs dividiam seus seios
em quadrantes. As blusas de malha eram uma afronta, pois deixavam
à mostra seus três estômagos.
Não podia dizer que não estava em forma...estava..em forma de
bola.
Não atraía mais olhares, pelo contrário, fugia deles. Deixara o
cabelo crescer justamente para esconder o rosto no ônibus e no
metrô. O pior de tudo era aquela fome.
Incessante.
Torturante.
Parecia que cada olhada para os "sonhos" na padaria lhe rendiam
mais quilos. Tentava se distrair na internet, mas sempre acabava
visitando sites de culinária.
Lia todas as receitas e comia os pratos com os olhos, dos mais
simples aos mais exóticos. Sentia que um dia, iria explodir.
Então, num domingo de inverno, folheando o jornal, deparou-se com
um anúncio peculiar:
"Não aguenta mais comer? Não consegue fechar a boca? Nós temos a
solução pra vc! Ligue agora para xxxx-xxxx. Desconto de 70% para
as primeiras 15 ligações!"
O coração disparou.
Era isso, finalmente! Uma esperança! Mal conseguia acreditar!
Ainda com os dedos lambuzados de chocolate ("danem-se as
dietas!"), alcançou o telefone.
Os dedos gordinhos teclaram os números, com a ansiedade de quem
vai casar.
_ Alô?!
_ "Closed Lips", boa tarde! Em que posso ajudar?
_ É que eu li o anúncio...
_ Ah, sim, claro, o anúncio! A senhora é a 14ª a ligar, por pouco
perde o desconto, hein?!
_ E-eu só queria uma informação...
_ Mas é claro, senhora, informação é tudo! Estou cadastrando seu
telefone e a partir de amanhã, o "Closed Lips" já estará
disponibilizado para a senhora...simples assim. Serão 48h
gratuitas, afinal, boquinha fechada, gordurinhas dissolvidas!
_ Mas espera, vão ser 48h de graça mesmo?
_ Claro, senhora, sua satisfação é nossa alegria! Tenha uma boa
tarde!
Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, a atendente desligou o
telefone.
"Mas que doida...como vão me entregar o produto? Vão pesquisar meu
endereço pela lista telefônica?! Eu, hein!"
Deu de ombros e foi ver TV. Preparou petiscos, e foi se
empanturrando de mais bombons, churros e pipoca (doce e salgada).
Como se não bastasse, devorou - sozinha - um pote inteiro de
sorvete com calda de chocolate.
O sono chegou e foi ali mesmo, em frente à tv, no sofá, que
desabou em um sono profundo.
Horas mais tarde, acordou, com o dia amanhecendo.
Tentou bocejar, mas não conseguiu. A boca não abria.
Passou as mãos nos lábios e sentiu algo áspero, estranho. Foi
correndo se olhar no espelho e horrorizada, viu que no lugar da
boca, tinha agora um zíper. Por mais que tentasse, não conseguia
abrí-lo. Entrou em desespero. Lágrimas desciam pelo seu rosto, mas
choro não se ouvia. Só murmúrios.
"Que é isso, meu Deus?! Que loucura!"
Tentou abrir a porta do apartamento, mas a maçaneta sumira.
As janelas estavam lacradas. Estava presa em sua própria casa e
pior, sem poder comer.
Assustou-se com o toque do telefone. Foi atender correndo, afinal,
fosse quem fosse, ouvindo seu murmúrio, poderia desconfiar de algo
e chamaria a polícia.
_ Bom dia, senhora! Espero que esteja satisfeita como nosso "Closed
Lips". Super eficiente, vai deixar a senhora em forma...em forma
de linha!!
_ Hmmm, hmmmm!! Hmmmm!!
_ Isso mesmo! Temos certeza que em 48h, a senhora vai querer usar
nosso produto para sempre!
Desolada, deixou-se cair no chão.
Telefone na mão, pensou em todos os pratos deliciosos que não
comeria, os milk-shakes que não tomaria, tudo o que não provaria
em 48h.
"Vou morrer..."
Cansada de tanto chorar, caiu no sono outra vez.
Acordou enxugando as lágrimas, mas podia, de novo, sentir seus
lábios. Levantando-se com dificuldade (estava pesada!), foi se
olhar no espelho.
Tinha sido um sonho...um sonho, não, um pesadelo!
Correu até a sala e pegou o telefone.
_ Alô!
_ Alô, pois não, em que posso ajudá-la?
_ É da Academia Perca Peso Feliz?
_ Perfeitamente, senhora...
_ Eu queria me matricular...urgente!
- Cláudia Banegas
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