A casa dos grandes pensadores
 
 
 

CLÉIA CARVALHO

 

 

 

HOMENAGEM PARA UMA AMIGA

Quero prestar uma homenagem, falar algumas palavras sobre uma amiga, que gosto muito e admiro. Nossa amizade vem de muitos anos, apesar de sempre conversarmos, às vezes não nos vemos, por causa de nossas vidas corridas, sofridas e difíceis, mas cada uma sabe que pode contar com a outra quando precisar.

Pois bem, fico muito triste e chateada, por ver esta minha amiga não ser admirada ou amada pelo que é. As pessoas que a amam, ou simplesmente gostam dela e a aceitam como é, são pessoas quase desconhecidas. Ás vezes a conhecem há pouco tempo, mas já conhecem sua alma, o seu bom humor. As pessoas de sua família, irmãs, irmãos, filhas fazem questão de desmerecê-la e não a respeitar como ser humano que é.

Se para os amigos está sempre presente, para a família só falta tirar o coração e colocá-lo em uma  bandeja e servi-lo. Mas, não a entendem e nem a amam pelo que é; querem mudá-la, não sabem que um dia, Deus parou tudo que estava fazendo no universo e resolveu criar a Cléia do jeitinho que é, com as qualidades e os defeitos que todo ser humano tem. ELE teve um propósito ao criá-la. Ninguém sabe qual é, mas ELE sabe e o mundo não seria mundo se ela não estivesse por aqui para cumprir o que ELE quer.

Eu a tenho como se fosse a irmã que eu não tive e quero que ela saiba disso, porque é melhor a gente saber que é amada quando está em vida do que nunca saber disso. Minha amiga e eu conhecemos uma a história da outra e nos reconhecemos e nos respeitamos, como grande lutadoras que somos, pois não desistimos nunca, apesar de cansadas.

Gostaria que vocês, amigos, leitores da Cléia, saibam um pouquinho como é essa pessoa "doidona", mas muito querida do meu coração.                         

Leiam esta parábola e vejam se não é a Cléia.

ÁGUIA OU GALINHA?

(Leonardo Boff)

“Era uma vez um camponês que foi à floresta vizinha apanhar um pássaro para mantê-lo em sua casa”. Conseguiu pegar um filhote de águia. Colocou-o no galinheiro junto com as galinhas. Comia milho e ração própria para galinhas. Embora a águia fosse o rei / rainha de todos os pássaros.

Depois de cinco anos, este homem recebeu a visita de um naturalista.          

Enquanto passeavam pelo jardim, disse o naturalista:             

– Este pássaro aí não é uma galinha. É uma águia.– De fato, – disse o camponês. É águia. Mas eu a criei como galinha. Ela não é mais uma águia. Transformou-se em galinha como as outras, apesar das asas de quase três metros de extensão.

– Não – retrucou o naturalista. Ela é e será sempre uma águia. Pois tem um coração de águia.                 Este coração a fará um dia voar às alturas. – Não, não – insistiu o camponês. Ela virou galinha e jamais voará como águia. Então decidiram fazer uma prova. O naturalista tomou a águia, ergueu-a bem alto e desafiando-a disse: – Já que de fato você é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, então abra suas asas e voe!  A águia pousou sobre o braço estendido do naturalista. Olhava distraidamente ao redor. Viu as galinhas lá embaixo, ciscando grãos. E pulou para junto delas.

O camponês comentou: – Eu lhe disse, ela virou uma simples galinha!  – Não – tornou a insistir o naturalista. Ela é uma águia. E uma águia será sempre uma águia. Vamos experimentar novamente amanhã.

No dia seguinte, o naturalista subiu com a águia no teto da casa. Sussurou-lhe: – Águia, já que você é uma águia, abra suas asas e voe! Mas quando a águia viu lá embaixo as galinhas, ciscando o chão, pulou e foi para junto delas. O camponês sorriu e voltou à carga:  – Eu lhe havia dito, ela virou galinha!  – Não –respondeu firmemente o naturalista. Ela é águia, possuirá sempre um coração de águia. Vamos experimentar ainda uma última vez. Amanhã a farei voar.

No dia seguinte, o naturalista e o camponês levantaram bem cedo. Pegaram a águia, levaram-na  para fora da cidade, longe das casas dos homens, no alto de uma montanha.  O sol nascente dourava os picos das montanhas.   O naturalista ergueu a águia para o alto e ordenou-lhe: – Águia, já que você é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, abra as suas asas e voe!  A águia olhou ao redor. Tremia como se experimentasse nova vida. Mas não voou. Então o naturalista segurou-a firmemente, bem na direção do sol, para que seus olhos pudessem encher-se da claridade solar e da vastidão do horizonte.

Nesse momento, ela abriu suas potentes asas, grasnou com o típico kau-kau das águias e ergueu-se soberana, sobre si mesma. E começou a voar, a voar para o alto, a voar cada vez para mais alto.                 Voou... Voou... “Até confundir-se com o azul do firmamento...”

Esta parábola é um exemplo da capacidade humana e de nosso espírito. Ela nos mostra o sentimento de auto-estima, coragem, a capacidade de enfrentar todos os problemas de nosso cotidiano e os quase insuperáveis em pé, sem esmorecer, como um guerreiro.

Cada ser humano tem dentro de si uma águia pronta para alçar vôos mais altos, buscar o espaço e o Sol. Porém, apesar do chamado, muitos continuam a ser a vida toda, apenas galinhas, pois é mais fácil ser galinha do que ser uma águia e ter de batalhar incansavelmente, fracassar às vezes, levantar                                 e continuar sem desistir até conseguir finalmente nosso objetivo.

A águia tem dentro dela a visão do infinito e ela quer voar por picos mais altos, desconhecidos. Algumas águias verdadeiras, apesar do sofrimento, apesar de haver ficado na prisão, nunca poderá deixar de ouvir o chamado de sua natureza de águia, que a convida diariamente para voar, olhar lá de cima a terra aqui embaixo, enquanto espreita e domina a imensidão do céu azul.

As pessoas águias reais que voam o mais alto na vida, são aquelas que se recusam a ser galinhas, que se recusam a ficar presas em suas vidas, a deixar que tudo que é errado permaneça e fique como está. Essas pessoas batalham por si e pelos demais e não ficam o tempo todo reclamando de sua sorte, vão à luta, não esperam que os outros façam e nunca desistem. A maioria das vezes voam sozinhas nos céus da vida e por isso se destacam, e por isso são alvo constante daqueles que têm inveja de seu vôo e de sua coragem. Seus sonhos não são quimeras, são realidade. Suas mentes nunca desistem e elas não permitem nunca que as "pessoas galinhas" as empurrem ladeira abaixo e as façam virar galinhas novamente.

Amiga voe sempre, como sempre o fez. Voe hoje e sempre e vença! Ocupe o lugar que é seu e algumas outras águias reais, no lugar mais alto da montanha e de lá veja como é triste a vida das galinhas que você ama, mas que não a entendem.

Quem sabe, um dia, quando você tiver alçado um vôo muito mais alto, em direção à nossa última morada, as galinhas que convivem com você percebam o quanto perderam ao não tentarem ser como você, ou simplesmente aceitá-la como é: Cléia, uma menina simples, sensível, amiga, companheira, que só quis ser e sempre foi uma águia real.

"A águia gosta de pairar nas alturas, acima do mundo, não para ver as pessoas de cima, mas para estimulá-las a olhar para cima” (frase de Elisabeth Kübler – Ross)

O autor Gibran Khalil Gibran em seu livro "O Profeta", Vossos filhos não são vossos filhos. São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma. Vêm através de vós, mas não de vós. E embora vivam convosco, não vos pertencem. Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos, porque eles têm seus próprios pensamentos. Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas; pois suas almas moram na mansão do amanhã, que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho. Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós, porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados. Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas. O Arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a Sua força para que Suas flechas se projetem rápidas e para longe. “Que vosso encurvamento na mão do Arqueiro seja vossa alegria: pois assim como Ele ama a flecha que voa, ama também o arco que permanece estável.”

Entendeu amiga? É dureza, mas é isto. Um dia elas também serão como nós: simples arcos.

Um beijo no seu coração.

Rose

13/06/08

Homenagem a Cleia Carvalho
Pensionista do AERUS/VARIG
 
Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 16/06/2008