Agonia
     

A casa dos grandes pensadores
 

ALBERTINO FERNANDES NETO

 

 

 

 

Macumba

Até hoje não sei por que o chamavam Macumba. Mas, era assim que todos daquela roda de garotos maltrapilhos e esfomeados o chamavam: Macumba.

- Fala aí Macumba! Oi Macumba, qualé a boa, cara? Diga aí, Macumba. Assim falavam os seus amigos quando se encontravam nos becos e ruelas da cidade.

Mais tarde, alguns dias depois que o conheci e já era merecedor da confiança dos moleques, procurei saber por que o chamavam de Macumba, e a resposta que os seus amigos de malandragem me deram, foi de que ele era Macumba, por que tinha cara de macumbeiro. Ora, alguém, por acaso tem cara de macumbeiro? E como é que é a cara de um macumbeiro? Pensei. – Ora, disseram-me eles, cara de macumbeiro é a cara que o Macumba tem. Não entendendo nada e achando que nunca ia ter mesmo uma resposta satisfatória, declinei e achei melhor aceitar que o Macumba tinha mesmo a cara de macumbeiro. Não questionei mais e dei-me por satisfeito.

Agora, acho até que o danado do moleque tem mesmo cara de macumbeiro. Com aquele jeito esperto de conversar com a gente, com uma maneira toda sua de andar balançando os braços, que nem um daqueles bonecos de borracha ao sabor do vento, e o jeito de encarar de frente, olho no olho, quando conversávamos.

O Macumba me impressionou no primeiro instante em que o vi na rua. Foi no momento que acabava de se livrar da bolsada de uma senhora gorda que gesticulava e o chamava de garoto sem-vergonha. O garoto ria e tentava se desculpar dizendo que não havia sido ele que tinha beliscado a bunda majestosa da senhora gorda e sim um alfinete que prendia um aviso com o valor da mercadoria da loja, e que por acaso ainda se encontrava preso nas ancas da avantajada agressora. O que ele queria mesmo era uns trocados para tomar um café e seguir o seu caminho sem beliscar bunda de ninguém.

Aproximei-me do pequeno incidente e após aquela senhora ter saída da loja, agora já sem o aviso pendurado no traseiro, perguntei ao moleque porque estava rindo daquela pobre mulher indefesa? Respondeu-me sem a menor cerimônia que ria, porque a mulher com uma bunda daquelas, poderia botar um aviso com valor um pouco melhor do que aquele de cinqüenta centavos o quilo. É, o jeito foi rir também e oferecer um lanche ao garoto que tinha cara que não sabia o que era alimento há alguns dias.

Assim conheci o Macumba, um garoto de rua como centenas de outros que perambulam pelas esquinas, becos e ruas da velha cidade de Salvador, capital da Bahia.

Não tinha mais que um metro e vinte de altura, mas já se achava um homem feito. Achava que sabia cuidar de si sem nenhum problema, pois, se sobrevivera desde pequenino quando fugira de casa aos quatro anos de idade, agora aos onze anos ninguém mais se ousaria a mexer com a sua pessoa, como ele mesmo dizia.

Com seu rosto moreno e queimado pelo sol das ruas soteropolitanas, seus cabelos loiros e encaracolados naturalmente, sem nunca os haver penteado, me lembrava um Ali Babá em miniatura. Um Ali Babá tupiniquim, como eu o chamava quando sabia de alguma história de roubo que ele havia cometido durante o dia.

Sempre estive a par dos acontecimentos e do dia-a-dia daquela turma de menores, liderados pelo ainda menor de todos: o Macumba.

Passei a agir assim, depois que coloquei na cabeça o propósito de saber como vivia aquele bando de menores marginalizados, e de que forma eu poderia auxiliar para minimizar os seus sofrimentos, já que os governantes estavam apostando em acabar com os meninos de rua e com o analfabetismo. Sabemos que apesar de todos os esforços, eles continuam crescendo de forma assustadora e tem se tornado a grande preocupação das sociedades do século vinte e um.      

Albertino Fernandes – Pensa-me

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