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- O Sem Orelha
- Era uma tarde de sábado, daquelas
de verão, que nos deixa sonolentos, com aquela preguiçinha e uma
vontade ainda maior de não fazer nada. Só mesmo uma rede para
balançar o esqueleto e uma gostosa sombra para espantar o calor.
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- No jardim de nossa casa, à sombra
de um frondoso pé de carambola, estava eu matutando os
acontecimentos da época e lendo mais uma vez meu precioso
exemplar do livro “Fernão Capelo Gaivota”, de Richard Bach,
quando ouvi um barulho de gente gritando por socorro na rua
próxima à nossa casa.
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- - Acudam aqui “pelamordedeus”,
Muniz está brigando com o Vavá e os dois vão se matar. Acudam
por favor, acudam.
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- Larguei o livro em cima da rede de
balanço onde estava e corri para a rua, para ver o que estava
acontecendo.
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- Do lado de fora de nossa casa
estavam realmente engalfinhados os dois maiores pinguços do
pedaço, Muniz, que não perde uma, e oVavá, que não perde
nenhuma. Tão grudadinhos estavam que mais pareciam dois amantes
em pleno ato do amor. Muniz, com o braço esquerdo laçado ao
pescoço do Vavá e a outra mão escondida pelo seu próprio corpo
segurava alguma coisa que não sabíamos exatamente do que se
tratava, até ouvir os gritos do Vavá.
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- - Solta meu negócio seu fio duma
égua, solta meu negócio.
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- Foi aí que notei que a mão direita
do Muniz estava agarrada ao sexo ou nos “quimba” de Vavá, como
falávamos na época, que aos berros continuava reclamando.
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- - Solta meu negócio seu desgraçado,
solta. Se não soltar você vai ver só.
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- Só no ato seguinte da disputa
ficamos sabendo do que se tratava o “você vai ver só” dito por
Vavá.
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- Como o Muniz não largava de jeito
nenhum as coisas do oponente, Vavá virou-se para o lado, como
quem ia tascar um beijo, em Muniz, e o que vimos e ouvimos foi
um gesticular e um pavoroso grito do Muniz, após soltar as
“coisas” de Vavá.
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- - Minha orelha, esse miserável
arrancou minha orelha, socorro, vou morrer, mamãe me acode
mamãe, me acode!
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- Dito e feito, após muito esforço da
vizinhança para separar os dois, notamos que Muniz estava sem
uma banda da orelha direita e o sangue jorrava para todos os
lados, para maior desespero do ferido que, numa desenfreada e
desesperada carreira evadiu-se para sua casa.
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- A essa altura chegou uma senhora,
que ficamos sabendo ser a mãe do Muniz, gritando que nem louca
para todo mundo, que não ficassem andando para lá e para cá, que
ela estava procurando o pedaço da orelha do seu filho querido e
que ia colar o pedaço de qualquer jeito, nem que fosse com cola
de sapateiro.
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- Só que nada foi encontrado e todos
saíram dizendo que o Vavá estava era esfomeado e tinha engolido
o pedaço da orelha de Muniz como tira-gosto das pingas que havia
engolido.
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- Só que nada foi encontrado e todos
saíram dizendo que o Vavá estava era esfomeado e tinha engolido
o pedaço da orelha de Muniz como tira-gosto das pingas que havia
ingerido.
Albertino Fernandes – Pensa-me
www.paralerepensar.com.br
- 28/10/2010

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