O MUNDO FELIZ
Também entendo a razão dos que passam pelo decurso da
quadra festiva Natal-NovoAno com amargura; são os
enfermos que estão nos Hospitais sem o carinho
envolvente dos familiares, que se reúnem para festejar o
prazer da companhia; o meu pensamento de pesar
engloba-os nessas ocasiões; são esses os que têm razão
de sobra para amargar uma quadra saudosa, recordando com
nostalgia e pena as quadras anteriores.
Também penso nessas alturas nos desvalidos que fazem da
rua a sua casa, dos que não têm pão à mesa, nem conhecem
o significado da palavra ternura; no fundo nunca
conjugaram nem proferiram o signo amor; para eles, ele é
avaliado como um enigma dos afortunados. Esta quadra não
significa algo que se sinta, nem na plenitude, nem na
graduação ampla da sua parcialidade. A passagem destas
festividades é um estado que eterniza a sua condenação
quotidiana. De ano para ano, choram a sua mágoa.
Penso ademais nos que se frustram com a continuação
ininterrompida do ressentimento psicológico pela sua
situação de excluídos da mesa onde se dá valor à
amizade, nos que desvalorizam a necessidade em expressar
amiúde, ou, pelo menos de vez em quando, os prazeres da
boa companhia, do contacto humano saudável, a riqueza
duma expressão de afecto, de um gesto de benquerença. E
de facto não a valorizam porque nunca a vivenciaram.
Quem desconhece estes estados de alma, não é uma pessoa
realizada; é efectivamente um deficiente mental, sem
saber usar todas as suas potencialidades cognitivas e
afectivas. Na verdade, deles sentimos pena e compaixão,
e por eles criticamos as instituições colectivas que se
arredam da formação social, e a nossa formação recebida,
e ainda aquela que não será ministrada para que todo
este estado de coisas perdure imparavelmente.
Penso outrossim nos excluídos da sua própria identidade
grupal, dominados pela força, dos refugiados a viver nas
mais trágicas condições humanas, nos que estão, mental e
fisicamente, degradados , nos exilados do território que
lhes pertence na sucessão das gerações, nos perseguidos,
encarcerados e
mortos em masmorras por defenderem ideais políticos
reformistas ou inovadores, nos marginais revoltados pelo
colectivo desleixo social que gerou a sua condição
desumana, nos drogados sem regressão, sem regeneração,
nas vítimas das guerras estropiados, deficientes,
agonizantes ou mortos, nos sequestrados inocentes
abusados vítimas do crime e da violência de doenças
mentais, nos injustiçados por erros e faltas dos que
tutelam este sector profissional: a Justiça, nos
miseráveis, esfomeados, nos envergonhados e
estigmatizados por causa própria e/ou alheia, nos
mal-amados, e que sabem que o são, não sabendo vencer
este obstáculo, nos iludidos pela futilidade, nos
convencidos abjectos que pagarão inevitavelmente pela
própria imbecilidade desse estado adquirido, nos
arrogantes e mal-formados.
Para finalizar, confesso que penso nesses todos, e
sinto-me também, ao pensar neles, como eles uma pessoa
incompleta com estados de alma igualmente infelizes. Só
porque para alguns de nós sermos totalmente felizes,
então todos os que andam embarcados na arca da vida
neste planeta deveriam ser
felizes como nós nos momentos da mais ampla fruição
dessa possível plenitude.
02.01.2010