A casa dos grandes pensadores

 

 
 

DANIEL CRISTAL

 


 

 

 
O MUNDO FELIZ

Também entendo a razão dos que passam pelo decurso da quadra festiva Natal-NovoAno com amargura; são os enfermos que estão nos Hospitais sem o carinho envolvente dos familiares, que se reúnem para festejar o prazer da companhia; o meu pensamento de pesar engloba-os nessas ocasiões; são esses os que têm razão de sobra para amargar uma quadra saudosa, recordando com nostalgia e pena as quadras anteriores.

Também penso nessas alturas nos desvalidos que fazem da rua a sua casa, dos que não têm pão à mesa, nem conhecem o significado da palavra ternura; no fundo nunca conjugaram nem proferiram o signo amor; para eles, ele é avaliado como um enigma dos afortunados. Esta quadra não significa algo que se sinta, nem na plenitude, nem na graduação ampla da sua parcialidade. A passagem destas festividades é um estado que eterniza a sua condenação quotidiana. De ano para ano, choram a sua mágoa.

Penso ademais nos que se frustram com a continuação ininterrompida do ressentimento psicológico pela sua situação de excluídos da mesa onde se dá valor à amizade, nos que desvalorizam a necessidade em expressar amiúde, ou, pelo menos de vez em quando, os prazeres da boa companhia, do contacto humano saudável, a riqueza duma expressão de afecto, de um gesto de benquerença. E de facto não a valorizam porque nunca a vivenciaram. Quem desconhece estes estados de alma, não é uma pessoa realizada; é efectivamente um deficiente mental, sem saber usar todas as suas potencialidades cognitivas e afectivas. Na verdade, deles sentimos pena e compaixão, e por eles criticamos as instituições colectivas que se arredam da formação social, e a nossa formação recebida, e ainda aquela que não será ministrada para que todo este estado de coisas perdure imparavelmente.

Penso outrossim nos excluídos da sua própria identidade grupal, dominados pela força, dos refugiados a viver nas mais trágicas condições humanas, nos que estão, mental e fisicamente, degradados , nos exilados do território que lhes pertence na sucessão das gerações, nos perseguidos, encarcerados e
mortos em masmorras por defenderem ideais políticos reformistas ou inovadores, nos marginais revoltados pelo colectivo desleixo social que gerou a sua condição desumana, nos drogados sem regressão, sem regeneração, nas vítimas das guerras estropiados, deficientes, agonizantes ou mortos, nos sequestrados inocentes abusados vítimas do crime e da violência de doenças mentais, nos injustiçados por erros e faltas dos que tutelam este sector profissional: a Justiça, nos miseráveis, esfomeados, nos envergonhados e estigmatizados por causa própria e/ou alheia, nos mal-amados, e que sabem que o são, não sabendo vencer este obstáculo, nos iludidos pela futilidade, nos convencidos abjectos que pagarão inevitavelmente pela própria imbecilidade desse estado adquirido, nos arrogantes e mal-formados.

Para finalizar, confesso que penso nesses todos, e sinto-me também, ao pensar neles, como eles uma pessoa incompleta com estados de alma igualmente infelizes. Só porque para alguns de nós sermos totalmente felizes, então todos os que andam embarcados na arca da vida neste planeta deveriam ser
felizes como nós nos momentos da mais ampla fruição dessa possível plenitude.

02.01.2010
 
Daniel Cristal

Publicação: www.paralerepensar.com.br  04/01/2010