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AMADOR NO AMOR - Crônica
Há o amor de cartório; papel passado; quase carteira assinada, que
é o casamento. Por essa característica burocrática e de cláusulas
matrimoniais muito rígidas, trata-se de um laço em ambos os
sentidos: Enlace mesmo, no sentido afetivo de união, e aquele laço
que os dicionários registram como armadilha, logo após a definição
romântica.
É possível ser feliz nas garras desse amor formal, que declara
resultados periódicos e se expõe ao fisco da sociedade. É, sim,
mas aí, até a felicidade é construída na ponta-do-lápis,
realizando cálculos para saber que arestas devem ser aparadas, que
sapos devem ser engolidos e que tipos de vista-grossa são
necessários para que um dos dois não "peça a conta" ou "seja
demitido".
Essa formalidade que se firma nos ritos do enlace matrimonial se
deteriora na rotina do "andar na linha" e no título mútuo de
propriedade. Quando os casais reconhecem depois de uns anos, que a
rotina embasada nesses itens e noutros tantos "detalhes tão
pequenos deles dois" (com licença, rei Roberto) está lhes causando
profundos desgastes, institui-se uma fuga da rotina, empreendida
com tanto desespero - embora risonho, romanesco e meloso -, que se
estabelece uma outra, bem mais acirrada.
No fim das contas, mais um contrato: Ambos mentirem para si mesmos
afirmando que o casamento foi salvo, quando se estabeleceu o
cômodo e acomodado grau de parentesco no que chamam de amor
verdadeiro, por estar livre da paixão. Justo a paixão, que é
simplesmente a alma do amor.
Daí concluo que os papéis, o contrato, as juras assistidas por
testemunhas e tudo o mais não foram feitas para mim. No fundo, nem
mesmo a união estável sem papelada, que acaba virando laço
estatutário, ainda que sem estatuto. Creio ter nascido prá
informalidade completa nestas questões de amor. Um camelô do
afeto. Muito menos que amante, um amador.
Demétrio Pereira Sena
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 29/10/2008
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