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ARTE QUE MANDA IR À MERDA
"O branco assento louçário que se abandona sobre a frieza deste
pequeno e imparcial espaço de cultura será somente o depositário
dos rejeitos intestinais do homem pós-primitivo, aos olhares menos
profundos. Mas é arte grandiloquente, no seu silêncio de objeto
convertido pela sensibilidade que transcendeu a matéria e a
utilização fisiológica dessa matéria, para quem sabe olhar além.
Passa a ser o ponto de reconhecimento da igualdade universal, o
monumento de reflexão diária e de prostração; de humilhação
solitária e resignada de pobres e ricos; nobres e plebeus; negros,
mestiços e arianos...".
O discurso erudito que as aspas demarcam certamente seria
elaborado por quem tivesse a missão de impor como obra de arte um
vaso sanitário "plantado" no salão de uma casa cultural. No museu
de arte moderna, por exemplo, vezeiro em acolher exposições que
agridem a inteligência, constrangendo o público aplaudi-las. Para
tanto, são utilizadas apresentações escritas - estas sim, geniais
- que levam o visitante a entrar na fila dos candidatos a
inteligentes, cultos ou entendidos, por apreciarem a bosta de
vaca, o pedaço de meio-fio, a velha boneca ou a bola de futebol
avariada que um dito gênio da arte apenas tirou da rua e pôs em
destaque no espaço nobre. Nem se deu ao trabalho de transformar a
peça; estilizá-la; fazer uma versão plástica (ainda que por
simples disposição criativa) convincente e merecedora do discurso
que a defende.
Na mesma leva dos objetos estão as instalações: Emaranhados
desconexos, amontoados de sucatas, amarrações descomprometidas com
o bom gosto e desprovidas de qualquer sentido, a não ser o
forçado. Desta forma, o que já não é decorativo nem utilitário
também não funciona como espetáculo, proposta reflexiva ou
interativa. É apenas algo ininteligível, amparado por textos que
tentam desqualificar a inteligência do não apreciador. Se alguém
diz que não gosta de um mafuá tanto imposto quanto exposto em
espaço reservado à arte, é classificado como idiota. Em outras
palavras, não gostar da enrolação previsível que infesta os museus
e outros espaços culturais é não entender de arte.
As artes plásticas estão sendo aviltadas, porque o artista não
quer trabalhar. Não quer se dar ao empenho da elucubração, da
elaboração do projeto artístico e do critério. Seja na pintura, na
escultura ou na instalação, ele exige público pensante para obras
não pensadas. Quer lançar aos olhos alheios o fruto de sua
ociosidade, com o apoio mágico de bons cronistas e de críticos
engajados nessa fraude, sem assumir que sua opção artística flui
da falta absoluta ou quase, do talento que inveja nos que chama de
ultrapassados. Esse mesmo artista relapso, truculento e sem
essência se contradiz quando exige do músico a boa música; do
poeta o bom poema; do ator o bom desempenho.
É preciso que as artes plásticas falem por si mesmas. Tenham a
capacidade silenciosa da persuasão, sem utilizar as muletas
literárias ou verbais que as escoram para disfarçar os aleijões
com que são obradas. Quem entende de arte é o consumidor ou
apreciador, uma vez que a mesma, como qualquer produto, é
disponibilizada ao consumo, seja por aquisição ou não. Se ele não
vê beleza, utilidade, sentido e função na obra, ela de fato não
presta e ninguém o fará conceber, no seu íntimo, que sim. Será
taxado de estúpido, mas isso não converterá o seu gosto, que não é
bom nem mau. É apenas o seu gosto.
Se tudo é arte, o mundo não precisa de artistas, museus, galerias,
espaços culturais. Melhor do que admirar a arte que manda ir à
merda, no luxo dos ambientes convencionais, é sair pelas ruas me
encantando com os sacos vazios de fandangos, as garrafas atiradas
nas valas, as próprias valas e os detritos que bóiam nas suas
águas imundas... ou artísticas. Digo artísticas, para quem
"entende de arte"... ou daquilo que deveria estar na "obra-prima"
do início desta crônica.
Demétrio Pereira Sena
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 23/05/2008
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