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A SELVA
Crônica
Demétrio Sena
Esperançoso ante a idéia de seus poemas serem lidos no Fantástico,
o Iverson deu um livro ao Pedro Bial. Aproveitou o ensejo de um
evento literário em que o jornalista estava, para "plantar" seu
trabalho de excelente qualidade. Na sua opinião, era o caso típico
do lugar certo, na hora certa e com a pessoa também certa.
A poesia de Iverson merece toda a apreciação da imprensa, do mundo
editorial e da sociedade em um todo. Tem beleza e profundidade, é
concectada com o mundo moderno e mantém a magia, o mistério, o
desempenho e o apuro estético da poesia clássica. Pena que o Bial
dificilmente lerá uma só página de mais um livro presenteado
intempestivamente. Um volume que será misturado a outros de menor,
igual ou maior qualidade - isso não importa -, num arquivo morto
que ele certamente dedica aos livros dados. Livros de admiradores
esperançosos, que ele não escolheu para ler. presentes de
estranhos; objetos adquiridos com extrema facilidade, e que por
isso não desafiam sua curiosidade leitora. Seu impulso
investigador.
O Iverson jogou fora aquele livro, como jogam fora quadros, peças
de artesanato, esculturas, discos e breguetes, pessoas que os
enviam para o Jô Soares, a Ana Maria Braga; personalidades
consagradas dos mundos artístico, editorial, jornalístico, entre
outros da fama; do glamur; da imortalidade. Esses meios excluem a
oferta, preferindo a procura; dispensam o fornecedor que bate à
porta, e vão às compras escolher seus produtos. Clubes, agências,
galerias, gravadoras, editoras, mídias têm seus olheiros, e
olheiros não são passivos. São ativos. Produtos ou amostras grátis
dados aleatoriamente, sem trâmites formais, são desprezados. É dos
olheiros a atribuição de estar nos lugares certos, nas horas
certas, quando os craques anônimos da bola, das letras, das artes
e da beleza estão "dando sopa" nos cantos mais inusitados.
Dar o livro, a obra de arte ou seja lá o que for é apostar no
remoto; no abstrato; no fenômeno. Entrar na fila dos milagres cuja
raridade excede a paciência humana. Na galáxia deserta da
disponibilidade dos Biais e das sequências exatas das raspadinhas,
ao algo mais que a simpatia dos Jôs, uma citação-relâmpago da Ana
Maria e uma sorte grande na Mega Sena, o Iverson tem muita fé.
Aposta alto; é um monge.
Não duvido que um dia o veja onde merece, ocupando a lista dos
poetas de maior prestígio e venda. Talento ele tem de sobra. Mas
para desbravar essa selva ele terá de abater leões a unha;
disputar carniças com as hienas sociais, e nunca, mas nunca mesmo,
esperar pelo guincho; a mão; a puxadinha dos que já estão lá,
mesmo que sejam amigos. Seria o caso de viver muitos anos além do
normal, à espera do tal milagre que não tem pressa nenhuma de
sequer adentrar os limites da galáxia que o rodeia. A vida é um
concurso injusto, cruel, desigual, e que faz de tudo para
reprovar, sendo cega pra méritos, esforços, questões de ética e de
solidariedade. Entrar na briga e não rejeitar armas é o principal
caminho.
Estou na mesma chalana que o Iverson. Só não sou puro como ele, e
tenho ainda a desvantagem do pessimismo de achar que a selva já
tem seus donos. Talvez por isto não chegarei, ao seu lado, onde o
"paga-pra-capar" ainda pode pô-lo. O Iverson é arrojado, enérgico,
teimoso e brigão pelo que acredita, pelo que se deixa sonhar a
todo o custo, haja o que houver.
Estamos em dois extremos, e reconheço que estou no do realismo
acomodado. No extremo da esperança calada, fria e vestida de um
sóbrio "tanto faz". Já o Iverson está no extremo dos que têm
salvação: Vencidas as ilusões do S.O.S. ídolos, ele é do tipo que,
diferente de mim, sabe como encarar a selva... E merece chegar lá.
Demétrio Pereira Sena
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 05/11/2008
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