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COMPLICADA SIMPLICIDADE
Sempre ouvi referências à rosa, aos rios e aos campos, como coisas
simples da vida. Poetas, por exemplo, são grassos em adicionar a
pétalas e folhas o idílio infalível do orvalho que, sobre elas, é
semelhante à lágrima.
Decanta-se o raiar e o pôr-do-sol; as brumas marinhas e as
gaivotas; as montanhas, os vales e as outras maravilhas de flora e
fauna, como simples. Uma simplicidade que só a poesia explica, sem
explicar; que a ciência não alcança em suas peculiaridades, em
seus detalhes mais profundos.
Ninguém explica os sentimentos da flor, os instintos da abelha, os
desejos do peixe. Não há como chegar aos sentidos das algas, às
emoções da gazela ou a razão da brisa quando acaricia a relva.
Será impossível divagar sem cair na monotonia, sobre todas as
singelezas dos mais diversos fenômenos naturais.
Diria que simples mesmo é a bomba atômica. Logo será simples a
clonagem humana, como são simples a cibernética, a energia
nuclear, o raio laser e todas as maravilhosas ou terríveis
complexidades da ciência e da tecnologia em um todo. São segredos
desvendados pelo homem, mistérios resolvidos pela mente humana e
alcançáveis pelo estudo, a pesquisa, a busca criteriosa.
Por mais que tenhamos encontrado algumas respostas da natureza
para projetos científicos com os quais desenvolvemos meios de vida
ou morte, jamais encontraremos essas mesmas respostas para o que
normalmente consagramos como simples: A aurora, o luar, a maresia,
a dor do inseto, o amor do molusco, a esperteza do felino, o DNA
da seiva. Se é possível estudar atitudes, temperamentos externos,
organismos e movimentos, não chegaremos à alma da flora; ao
espírito da fauna; à essência dos astros atingíveis ou não.
São falsas as mensagens sobre a singeleza dos lírios; dos regatos
e gaivotas; da teia da aranha. Mensagens impressas em cartões
românticos, religiosos, comemorativos... Cartões impressos sob
medida para vendagens expressivas, lucros imediatos e contínuos.
Finalmente, simples de fato são os homens, com toda a sua
complexidade apregoada. O ser humano se vasculha, esquadrinha,
explica e consegue dissertar sobre si sem recorrer à farsa poética
para responder sem resposta, esclarecer sem clareza, tornando o
prático abstrato, filosófico, fugidio e delirante.
Como o homem, são simples as criações e criaturas dele advindas,
bastando-lhe a construção, o exercício, a disciplina e a ousadia
do conhecimento. Trata-se de um conjunto que não basta para que se
domine ou explique o que foge ao reastreamento científico, por
fugir exatamente à natureza humana.
Exclua-se Deus do contexto deste artigo, porque o autor do
presente, embora respeite as crenças, exclui a idéia de sua
existência, talvez por ser complexa como a flor, o riacho e a
libélula. Mais ainda, pela concessão de que possa estar errado,
vendo a fé como íten precário, puramente poético, para que se
imponha como autenticação definitiva do que foi escrito exatamente
como agora o faço: Movido por impressões emocionais, passíveis de
arroubos equivocados.
Quanto ao parágrafo anterior, isto é apenas uma divagação, porque
a vida é de cada um. O coração é propriedade privada. O arbítrio é
livre em todos nós. Isto é tão simples de compreender quanto as
simples complicadas maravilhas da ciência.
Demétrio Pereira Sena
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 10/09/2008
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