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DE GUERRAS E OLIMPÍADAS
Profundamente afeito a guerras e todas as formas imagináveis de
conflitos, o ser humano traz no sangue o sonho insuperável de
superação sobre o outro. Vem de longe esse desejo do homem, de
vencer o próximo e erguer a cabeça do vencido como troféu, para
que todos admirem sua força, sua coragem e truculência. É a eterna
sede de poder, que atravessa os tempos. Poder que leva à posse;
que sempre se ostentou pelo ter, pelo mandar, pelo dirigir e
ocupar posições de destaque em todas as sociedades do mundo, desde
as mais primitivas e aparentemente pacíficas.
Com toda a beleza e pregação de paz que esses eventos portam, os
torneios esportivos de qualquer outra natureza são ramificações da
guerra. São pelejas. O que há de bonito em competições é o fato de
o homem "guerrear" sem armas letais, educando sua agressividade.
Evoluiu-se neste aspecto, estabelecendo-se o tal espírito
desportivo, cujo princípio consiste no respeito do vencedor pelo
vencido e na aceitação do vencido, que cumprimenta quem o superou,
não o tendo como inimigo. O que seria vingança virou revanche; a
oportunidade de resgatar a vitória perdida; a chance de mostrar
que não é inferior, ou pelo menos não é mais, porque treinou para
tanto.
As olimpíadas são guerras. Como são guerras as copas, os mundiais,
os "pans" e todas as outras formas de competição. Se o homem não
tivesse o desejo de derrotar alguém, usar sua força ou técnica
para superar o próximo e sorrir enquanto ele chora e lamenta,
nenhum jogo seria tão disputado. Nenhuma medalha seria tão
importante em sua vida. Não seria importante para ele, guardar nas
paredes de casa e da memória os momentos honrosos em que derrubou
o outro; foi melhor; superior; mais esperto ou competente. Como
não podemos viver sem isso, melhor assim. Melhor essa guerra
transformada em festa, que une tantas nações num conflito sadio,
enquanto outras nações se digladiam na ferocidade das guerras à
moda antiga, matando; mutilando; destruindo as condições normais
de vida e estabelecendo o inferno entre os seres.
Muitas nações não aprenderam a erguer medalhas e troféus em
substituição às cabeças inimigas. Não aprenderam a transformar
inimigos em oponentes; combates sangrentos em torneios. Ódio em
espírito de desafio esportivo, no qual a maior superação acaba
sendo pessoal, para só depois ser sobre o outro. E os governantes
belicosos de algumas nações, até mesmo das que participam das
festas mundiais dos esportes, usam esses eventos como empanação de
conflitos e dispersão da consciência popular dos problemas de seus
países.
Que a guerra pacífica destes dias, travada no campo de batalha
festiva de Pequim, seja de todas as formas uma grande lição de
solidariedade, unindo vencidos e vencedores em um mesmo espírito:
O da fraternidade, do respeito mútuo, da união dos povos e da
consciência de como este mundo ainda precisa melhorar, para ser de
todos. E que a disputa por medalhas e destaques não se torne um
embate pelo poder absoluto e a superioridade em nenhum aspecto,
sobretudo o étnico e o religioso, o que sempre gerou os maiores e
mais sangrentos conflitos da humanidade.
Demétrio Pereira Sena
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 14/08/2008
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