A casa dos grandes pensadores
 
 

DEMÉTRIO PEREIRA SENA

 

FEIRA-LIVRE

Ninguém quer descascar um abacaxi; resolver um pepino; ser considerado um banana, um pamonha... nem quer pôr azeitona no pastel alheio. Mas tem gente que acha que pimenta nos olhos dos outros é refresco: Gosta de perturbar dizendo abobrinhas e não pensa nas pessoas em volta na hora de enfiar o pé na jaca. Como se não bastasse, ainda manda todo o mundo plantar batatas ou ir às favas.Detesto pessoas que pisam no tomate, escorregam no quiabo e praticamente penduram uma melancia no pescoço para aparecer. O que me consola é saber que a mandioca delas está assando e logo, logo levarão uma pitomba, irão em cana ou amanhecerão com uma ameixa no meio da testa, dependendo das carambolas em que se metam.Dia destes um velho com cara de jenipapo, tão feio que parecia chupar limão abusou de uma moça na rua: chamou-a de chuchuzinho, tentou beijar-lhe as maçãs do rosto, elogiou seus melões, disse que ela era uma uva e queria, porque queria degustá-la. Só que a coisa para ele não
 foi mamão com açúcar: vermelha como um pimentão maduro a moça se transtornou. Parecia o cão chupando manga, de tanta raiva. Disse que ele era um bagaço de laranja e cabeça de camarão entre outras coisas, e deu-lhe um chute nos ovos. O sujeito chegou a ver estrelas e foi vender seu peixe noutra freguesia.Sorte do velho foi que a polícia, como sempre, não chegou na hora. Pelo jeito ele estava duro como um coco e não teria cacau para subornar. Tomaria um bom palmito no lombo, para nunca mais confundir pitanga com acerola nem folha de inhame com taioba. Catando milhos em minha velha máquina datilográfica, de repente lembrei deste episódio. Resolvi usá-lo como exemplo, porque já vi muita gente boa virar chouriço por muito menos, com estes olhos de amêndoas que a terra há de comer. Ademais, quem já tomou tanta castanha da vida tem o dever de aconselhar a todos que o rodeiam, para que nenhum cérebro de abacate acabe sendo amassado pelo destino.Conforme diz o profeta e rei da cocada
 preta Roberto Carlos, "é preciso saber viver". Vou além, dizendo que a vida é uma fruta boa... mas tem caroço. Quem come coquinhos de pindoba e depois arrota nozes e avelãs deve ter cuidado: é o tipo de pretensão que faz o tempo nos colher bem cedo... como se fôssemos hortaliças.

Demétrio Pereira Sena

Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 12/05/2008