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FEIRA-LIVRE
Ninguém quer descascar um abacaxi; resolver um pepino; ser
considerado um banana, um pamonha... nem quer pôr azeitona no
pastel alheio. Mas tem gente que acha que pimenta nos olhos dos
outros é refresco: Gosta de perturbar dizendo abobrinhas e não
pensa nas pessoas em volta na hora de enfiar o pé na jaca. Como se
não bastasse, ainda manda todo o mundo plantar batatas ou ir às
favas.Detesto pessoas que pisam no tomate, escorregam no quiabo e
praticamente penduram uma melancia no pescoço para aparecer. O que
me consola é saber que a mandioca delas está assando e logo, logo
levarão uma pitomba, irão em cana ou amanhecerão com uma ameixa no
meio da testa, dependendo das carambolas em que se metam.Dia
destes um velho com cara de jenipapo, tão feio que parecia chupar
limão abusou de uma moça na rua: chamou-a de chuchuzinho, tentou
beijar-lhe as maçãs do rosto, elogiou seus melões, disse que ela
era uma uva e queria, porque queria degustá-la. Só que a coisa
para ele não
foi mamão com açúcar: vermelha como um pimentão maduro a moça se
transtornou. Parecia o cão chupando manga, de tanta raiva. Disse
que ele era um bagaço de laranja e cabeça de camarão entre outras
coisas, e deu-lhe um chute nos ovos. O sujeito chegou a ver
estrelas e foi vender seu peixe noutra freguesia.Sorte do velho
foi que a polícia, como sempre, não chegou na hora. Pelo jeito ele
estava duro como um coco e não teria cacau para subornar. Tomaria
um bom palmito no lombo, para nunca mais confundir pitanga com
acerola nem folha de inhame com taioba. Catando milhos em minha
velha máquina datilográfica, de repente lembrei deste episódio.
Resolvi usá-lo como exemplo, porque já vi muita gente boa virar
chouriço por muito menos, com estes olhos de amêndoas que a terra
há de comer. Ademais, quem já tomou tanta castanha da vida tem o
dever de aconselhar a todos que o rodeiam, para que nenhum cérebro
de abacate acabe sendo amassado pelo destino.Conforme diz o
profeta e rei da cocada
preta Roberto Carlos, "é preciso saber viver". Vou além, dizendo
que a vida é uma fruta boa... mas tem caroço. Quem come coquinhos
de pindoba e depois arrota nozes e avelãs deve ter cuidado: é o
tipo de pretensão que faz o tempo nos colher bem cedo... como se
fôssemos hortaliças.
Demétrio Pereira Sena
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 12/05/2008
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