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FÉ SUTIL
Não descarto a hipótese de algum dia ser convencido a crer em
Deus. Para tanto, seria necessário algo mais profundo, subjetivo e
sutil do que as demonstrações desordenadas, desencontradas e mesmo
assim seletas, atribuídas a ele. Um olhar, um silêncio
significativo, talvez um odor, uma textura, uma emoção velada.
Nada de firulas divinas por meio de curas espetaculares, paredes
abertas nos oceanos e gente abrandando furacões "em nome do
altíssimo". Muito menos metamorfoses orgânicas, geográficas,
espaciais ou ameaças de um lugar de fogo, sofrimento, escuridão e
ranger de dentes.
Um deus que vive para provar que é Deus, que tudo pode, que tem
mais poderes que um certo ser que ele mesmo teria criado não é,
definitivamente, o que poderia me tocar. No fundo, só me bastaria
mesmo ser humano, comum, o flho do meio (aquele que nunca é o
predileto), em caso de conversão à crença (jamais a um segmento
religioso). No mais, deus poderia ser, pra mim, menos Deus. Mais
humano e próximo dos que se julgam semelhança dessa possibilidade
criadora e mantenedora. Pragas do egito, imagens do apocalipse ou
maravilhas do mesmo conto não subornam minha emoção, pelas tantas
grandezas ostentadas.
Aos oceanos, sou aquele que prefere os córregos. A lua no céu me
seduz bem menos do que na poça. Gosto mais da pétala que da flor
em um todo. Emociona-me a samambaia, nem tanto a palmeira. Uma vez
real, deus me quebrantaria se apresentando como pregam que nós
devemos fazê-lo em sua presença. Com singeleza. Exatamente como
aquele pai terreno que ao dirigir-se à criança para seja lá o que
for, sempre se curva e faz com que ambos fiquem na mesma altura.
Demétrio Pereira Sena
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 14/07/2008
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