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MALDIÇÃO
DE POETA
Há uma certa maldição no ser poeta. É como se o mesmo carregasse
todos os sentimentos do mundo e fosse cada pessoa que ele retrata
em seus versos. Vivesse cada momento registrado por uma inspiração
que nem sabe de onde vem; se da mente, as vísceras, o coração, a
alma ou simplesmente a caneta.
O poeta magoa sem querer, quando seus versos são cruéis. Há em
volta uma gama de sentinelas que decidem por ele a quem são
dirigidos esses escritos. Pior ainda, existe sempre alguém que
apanha um contexto, aponta para o próprio peito, como se fosse
arma, e detona. Isso faz com que o poeta seja um constante "suicidador"
a sangue frio.
Quando os poemas são de bom tom, dedicados aos seus afetos, tais
afetos não os recebem como o poeta sonha. Frustram com gestos e
olhares inesperados, todas as expectativas de quem derramou a
própria essência no papel, para doar-se aos alvos dos sentimentos.
O poeta é muito profundo para a superficialidade do alcance comum
de seus escritos.
Estar poeta; simplesmente fazer poesia; visitar as bainhas do ser,
de fato, não configuram exatamente um peso. Todo ser humano tem
sua face poeta, e os seres humanos como ele podem compreendê-lo.
Ser por inteiro, em essência, com toda a profundidade inerente a
quem vendeu sua alma prá magia negra do poetar é que foge a toda
compreensão humana.
Já disse, em poema, que o poeta é um "etê". E como "etê" que sou,
é claro que não alcancei a compreensão humana. E houve protestos
de pessoas, poetas interinos e passageiros da poesia. Eis aí a
maldição: Ser poeta é ter falado pra ninguém, depois da nítida
impressão de que falou pra todo o mundo.
Demétrio Pereira Sena
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 13/08/2008
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