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MINHA NAVE
Fechando o livro com o qual me regalava, lembro que estou na fila
do consultório médico. Minha vez está quase chegando. Confiro a
senha e vejo que não há tempo de ler mais um artigo sem a
preocupação de ser chamado e não ouvir. Muita gente ainda está
para consultar-se depois de mim. Gente aflita, que balança a
cabeça e estala a língua, de impaciência. Que resmunga e franze a
testa. Que acompanha com os olhos cada funcionário que passa, com
papéis a serem despachados. Papéis que levam seus nomes, seus
dados, suas vidas. Papéis que merecem mais cuidado e atenção do
que seres humanos. Percebo que de todas as outras pessoas ali
presentes nenhuma lê. A única literatura em mão de alguém está
servindo de abano para uma paciente impaciente, de seus sessenta
ou mais anos. Cada um vive sua espera, sua angústia, seu abandono
e dissabor sem a fantástica viagem imaginária de uma boa leitura:
a saga de um herói popular, poemas de amor, crônicas de um doido
como eu, receitas culinárias... Nada. Sinto pena dessa gente que
amarga cada minuto do infinito estar ali. Toma cada gota rascante
e ingrata da certeza do quanto não importa ou significa para os
atendentes e médicos do local. Nada há que a faça esquecer tudo e
sentir prazer, tornando o tempo não sentido. Neste momento, poder
ler algo ajuda tanto que me faz esquecer os próprios problemas
para ser solidário, intimamente, com tais pessoas. Só lamento que
o livro seja uma nave tão desprezada no dia-a-dia do ser humano,
ao ponto extremo de me dar a certeza de que uma simples carona
seria rejeitada. Pensei tudo isto em minutos. Meu número está
sendo anunciado. Lá vou eu, um número, saber se meu caso é
preocupante ou não. Seja como for, na volta para casa terei um
livro. Talvez dê até um pulinho em Marte, para saber como anda o
planeta no qual os cientistas ainda sonham - somente sonham -
pisar um dia.
Demétrio Pereira Sena
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 05/08/2008
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