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MONSTROS PASSIVOS
Depois da tragédia com a menina Isabella, foram muitas as matérias
veiculadas na mídia, sobre pais que maltratam filhos das mais
hediondas maneiras, inclusive abusando sexualmente. Foi o caso
daquele pai monstruoso que fez da filha uma escrava sexual,
aprisionando-a e tendo filhos com ela. Filhos que ao mesmo tempo
são seus netos, que também eram maltratados na casa subterrânea
que ele construiu especificamente para este fim.
Entre uma notícia e outra, surgiram os relatos de vizinhos que
tinham conhecimento das atrocidades noticiadas e resolveram
quebrar silêncios. Silêncios que deveriam ter sido quebrados há
muito tempo, mas a covardia e a acomodação de uma sociedade na
qual cada um só pensa em si, e algumas vezes na família não
permitiu que algo fosse feito pelo sofrimento de tanta gente. Algo
fácil, como um telefonema anônimo que não põe em risco a vida de
ninguém e que, portanto, não ampara as justificativas de que se
está preservando a integridade física de entes queridos. Às vezes
chego a me indagar se isso é preguiça ou maldade mesmo.
Devíamos ser mais solidários com o sofrimento alheio, e mais
interessados em saber o que está ocorrendo em determinadas
residências das quais chegam claros clamores aos nossos ouvidos.
Não me refiro a quebra ou invasão da privacidade alheia, mas a uma
presença de espírito que nos faça estar alertas a possíveis
sofrimentos de mulheres e crianças. Uma presença de espírito que
só existe quando existe amor ao próximo e interesse em uma
sociedade mais justa e menos monstruosa do que esta na qual
estamos vivendo. Acho monstruoso quando pessoas que se calaram por
tanto tempo se apresentam diante das câmeras, por exemplo, para
fazer denúncias tardias, que já não podem ajudar, somente para dar
satisfações à própria consciência ou simplesmente para contribuir
com a massificação de fatos que passam a ser explorados como
espetáculos bizarros.
Se tivéssemos os corações voltados para essa preocupação humana e
social, seriam muito menores os índices de violência doméstica. De
espancamentos e outros maus tratos a crianças e mulheres. Seriam
muito maiores os índices de casos solucionados antes de tragédias,
inclusive os casos de sequestros cujos cativeiros muitas vezes
ficam perto de nossas casas, e bastaria um olhar mais atento para
que notássemos os pormenores suspeitos, fazendo a nossa parte como
cidadãos que estamos deixando de ser.
Pensarmos no próximo é pensarmos também em nós. Vencermos o medo
de amar com gestos, com atitudes que ajudem à sociedade, é
ajudarmos aos nossos, possibilitando a chance de tempos melhores
para se viver. Isso é plenamente possível. Uma só denúncia em
tempo hábil, que tire um único monstro de circulação já impede que
muita gente sofra ou morra em circunstâncias desumanas.
Demétrio Pereira Sena
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 19/05/2008
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