A casa dos grandes pensadores
 
 

DEMÉTRIO PEREIRA SENA

 

NA OUTRA MORTE

É a mais indigente das favelas que já vi. Barraquinhos de caixotes de feira cobertos de plásticos e outros materiais inadequados à moradia. As valas a céu aberto são incontáveis, a exemplo das gordas ratazanas que circulam livremente. São menos assustadas que os esqueléticos animais domésticos impedidos por elas de garimpar os restos de alimentos entre o lixo espalhado por todo o triste e doentio cenário. As crianças esquálidas, subnutridas vestem trapos encardidos e têm barrigas avolumadas, fazendo com que as magrezas se acentuem sobremaneira. O que as avoluma são vermes contraídos nas imundícies com que convivem. A anemia comum a todos amarela as mais claras e desbotam as negras, parecendo estabelecer sub-etnias. Subprodutos da fome, do abandono, do descaso oficial, das desigualdades sociais.
Em meio a tanta miséria, um espantoso contraste: A imponência de um templo evangélico de três pavimentos, arquitetura sofisticada, janelas e portas coloniais. Na fachada um letreiro dourado, e no interior tudo é luxo: bancos de madeira de lei, cortinas de tecidos nobres, muitos lustres, aparelho de ar-condicionado, piano de cauda e púlpito de ardósia, ignorando-se pormenores. Dos mais de mil fiéis que ali comungam, pelo menos novecentos são moradores indigentes da favela. Pessoas que pela fé lhes incutida dividem o que ganham na catação de lixo, na venda de ferro-velho, nas mais diversas virações, com a igreja. Seus dízimos, ofertas e mutirões ajudam grandemente a construir o império divino na comunidade, garantindo ainda o salário nada modesto do líder, que acaba de comprar um carro novo e reformar sua casa quase tão pomposa quanto o templo.
No momento em que teço este relato pergunto ao silêncio que rodeia: como estão as moradias de todas as pessoas simples ou miseráveis que ajudam a construir as luxuosas "casas de Deus" em todo o mundo? O que há para se comer, agora, nas mesas simbólicas das famílias menos ou nada favorecidas que mantêm fartas as mesas dos manda-chuvas de todas as facções religiosas e seus respectivos clãs?
Na verdade, nem todas essas famílias mantenedoras dos templos e dos caciques do reino dos céus na terra têm moradia. Nem todas elas têm alimento. Mas isso pouco importa, porque aprenderam que suas almas precisam mais de sustento que seus corpos, e que Deus os abençoa com um dia após o outro, de uma vida pelas pontas. Rastejante. De servidão e de falsa felicidade, pelas promessas de conforto no além. Depois da morte.

Demétrio Pereira Sena

Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 16/06/2008