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NA OUTRA MORTE
É a mais indigente das favelas que já vi. Barraquinhos de caixotes
de feira cobertos de plásticos e outros materiais inadequados à
moradia. As valas a céu aberto são incontáveis, a exemplo das
gordas ratazanas que circulam livremente. São menos assustadas que
os esqueléticos animais domésticos impedidos por elas de garimpar
os restos de alimentos entre o lixo espalhado por todo o triste e
doentio cenário. As crianças esquálidas, subnutridas vestem trapos
encardidos e têm barrigas avolumadas, fazendo com que as magrezas
se acentuem sobremaneira. O que as avoluma são vermes contraídos
nas imundícies com que convivem. A anemia comum a todos amarela as
mais claras e desbotam as negras, parecendo estabelecer
sub-etnias. Subprodutos da fome, do abandono, do descaso oficial,
das desigualdades sociais.
Em meio a tanta miséria, um espantoso contraste: A imponência de
um templo evangélico de três pavimentos, arquitetura sofisticada,
janelas e portas coloniais. Na fachada um letreiro dourado, e no
interior tudo é luxo: bancos de madeira de lei, cortinas de
tecidos nobres, muitos lustres, aparelho de ar-condicionado, piano
de cauda e púlpito de ardósia, ignorando-se pormenores. Dos mais
de mil fiéis que ali comungam, pelo menos novecentos são moradores
indigentes da favela. Pessoas que pela fé lhes incutida dividem o
que ganham na catação de lixo, na venda de ferro-velho, nas mais
diversas virações, com a igreja. Seus dízimos, ofertas e mutirões
ajudam grandemente a construir o império divino na comunidade,
garantindo ainda o salário nada modesto do líder, que acaba de
comprar um carro novo e reformar sua casa quase tão pomposa quanto
o templo.
No momento em que teço este relato pergunto ao silêncio que
rodeia: como estão as moradias de todas as pessoas simples ou
miseráveis que ajudam a construir as luxuosas "casas de Deus" em
todo o mundo? O que há para se comer, agora, nas mesas simbólicas
das famílias menos ou nada favorecidas que mantêm fartas as mesas
dos manda-chuvas de todas as facções religiosas e seus respectivos
clãs?
Na verdade, nem todas essas famílias mantenedoras dos templos e
dos caciques do reino dos céus na terra têm moradia. Nem todas
elas têm alimento. Mas isso pouco importa, porque aprenderam que
suas almas precisam mais de sustento que seus corpos, e que Deus
os abençoa com um dia após o outro, de uma vida pelas pontas.
Rastejante. De servidão e de falsa felicidade, pelas promessas de
conforto no além. Depois da morte.
Demétrio Pereira Sena
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 16/06/2008
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