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NOITE EM MEU RECANTO
Cai a noite serena e misteriosa. Surge o silêncio quase completo à
minha volta. Sensual e segura de seus encantos, a lua mal cobre
seus contornos com uma nuvem rala e transparente. Faz pouco frio,
pelas graças de uma brisa que singra e me acaricia sem perguntar
se a desejo... Mas desejo e a sorvo como se fosse a carícia do
alvo de minhas saudades.
Logo surgem os primeiros pios, o coaxado intenso e a afinação dos
grilos, numa orquestra equidistante que não chega a
descaracterizar o silêncio. Saboreio a cantata e conto estrelas,
sem temer as verrugas que a crendice popular atribui a quem o faz.
Vale a pena o risco dessa magia, pela paz que me absorve, nina e
faz sonhar o que não sei dizer.
Desce a noite morena, como delicada moça cafuza, rainha da
penumbra que reina sobre todo o cenário. Tudo pousa em minha
ferida interna como poção que abranda e descansa o espírito
irrequieto no dia-a-dia. Vem e oferece o ombro, o regaço e a
discrição, cobrando apenas ser causa de um poema, uma prosa bem
inspirada, uma canção de viola ou algo parecido. Quer ser musa, e
já é, mas a sua modéstia não lhe permite perceber o encanto e a
doçura que proporciona.
Pousa a noite suave, amiga dos solitários e ao mesmo tempo dos
enamorados, amantes e sonhadores. Cobre-me de confidências, de
segredos, sussurrando nos ouvidos o que não ouço... Apenas sinto e
desvendo em meu ser, que fica leve, desafiando a lei da gravidade,
além dos ares graves que frequentam meu rosto.
Cai de manso a senhora que me ampara... Uma doce e rara enfermeira
que se traja de penumbra. Vem remediar minha solidão, tornar mais
doces as nostalgias, as saudades e tudo o mais que abarrota a
minha certeza de ser possível ser feliz... Ainda que seja por uns
momentos, como estes que usei para ver o que há de belo nas noites
que os olhos não contemplam mais.
Demétrio Pereira Sena
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 29/04/2008
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