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O ÚLTIMO VÔO
Já passava da meia-noite, quando um pássaro ainda não
identificado invadiu a bela e nova casa do casal em lua-de-mel.
"Pássaro feio". Distante de ser um daqueles pássaros ambicionados
por pessoas que dizem "gostar de passarinho", demonstrando esse
gostar na crueldade de criá-los em cativeiros. Na maioria das
vezes em gaiolas minúsculas. Ninguém quer um "pássaro feio" dentro
de casa, porque pode ser de "mau agouro". Especialmente quando se
trata de moradores recém-casados.
A moça corre para o quintal, onde há mais casas, espavorida e
levando pânico à parentalha. O marido fica, vassoura em punho, com
a incumbência de expulsar o quase "gato preto debaixo da escada",
espantando com isso a má sorte. Repete-se com o pássaro a cultura
de expulsar o que é diferente, repelir o que é formalmente feio, a
qualquer preço, ainda que não represente risco algum à saúde, à
vida e ao ambiente.
Fosse uma ave bonita, ainda assim amargaria seu mau destino. Seria
carinhosamente presa para cantar pros donos, que o casal então
passaria a ser. Quem foi capaz da espantosa truculência gerada
pela filosofia do ele ou eu, fazendo o que fez após todas as
tentativas vãs de expulsar a visita antes que ela tivesse o desejo
de sair com as próprias asas - o que acabaria ocorrendo - não tem
consciência ecológica. É a falta dessa consciência que mata
"bichos feios"; aprisiona os bonitos; devasta a natureza sob os
mais insípidos argumentos que desaguam no velho "teve quer ser
assim", entre outras conclusões. Muitas delas de cunho comercial.
Como "teve que ser assim", o rapaz abateu a inofensiva coruja. Deu
sua "singela" contribuição nefasta ao quadro de risco de extinção
de um animal importante na peleja pelo equilíbrio ecológico.
Afinal, é sempre um consenso familiar eliminar o incômodo, o
indesejável, distribuindo pretextos em discursos ora pungentes,
ora fervorosos, às vezes contritos.
Ninguém ali matou para não morrer, para preservar a saúde ou
defender a honra. Ninguém o fez para proteger os seus de uma cobra
ou um rato que adentra a casa, ou de bandidos que também o fazem,
ameaçando a todos. Todos mataram, pelas mãos de um, tão somente
para não serem incomodados pelo privilégio de hospedar, apenas por
umas horas, tão ilustre e delicada visita.
Demétrio Pereira Sena
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 11/08/2008
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