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PERDÃO É TROCA
Acho que o perdão é gradativo. Tem que ser. Esse negócio de um
momento registrado, em que um pede perdão e outro dá, vira
documento. Documento é burocrático e tem tudo para se tornar mais
um objeto de hipocrisia. Ou de desigualdade, em que este se
humilha, se assume inferior, e aquele se engrandece exercendo uma
prática ostensiva que será posteriormente admirada por todos. Vejo
que os perdoadores nunca são anônimos. Seus atos de grandeza
institucional são difundidos e lhes dão prestígio na comunidade;
especialmente entre os grupos religiosos dos quais fazem parte.
O verdadeiro perdão não tem palavra decisiva, gesto cortante, ato
único. Isso é teatro; serve para emocionar, produzir lágrimas e
filmes. São realmente belos os espetáculos produzidos pelo "me
perdoa...", "eu te perdôo!", mas são apenas espetáculos que o
tempo quase sempre desmonta, pela superficialidade.
Perdoar expressamente é o grande momento de um ser humano em busca
de notoriedade ou pelo menos uma boa massagem no ego. É aquele
cenário em que uma pessoa se encolhe, baixa os olhos e suplica o
produto de uma virtude que o mundo enaltece e transforma em
vitrine socio-religiosa. Todos querem perdoar, porque o perdoador
é protagonista. Mocinho da história ou do episódio. O perdoado é o
vilão. Aquele que fez maldades e agora se rende à própria culpa,
como se chegasse ao fim de uma novela, quando cada personagem
presta contas de quem foi durante a trama.
O mundo será mais transparente quando as pessoas se assumirem com
seus erros e acertos, as virtudes e os defeitos, todos os lados de
sua inevitável humanidade. Se achamos belo pedir perdão, imaginem
um mundo em que todos reconheçam suas culpas e recorram em
silêncio à generosidade gradual e também silenciosa dos que
perdoam. Como não existem situações em que apenas um é culpado,
perdoar e pedir perdão terão sempre uma resposta, e essa resposta
será construída, estruturada lentamente. Não atirada pelo ímpeto,
a precipitação, o arroubo próprio das neuroses de massa.
Perdoem pelo texto. Mas procurem mergulhar no contexto destas
linhas e me peçam também perdão. Mas façam isto sem palavras, para
que o tempo nos dê a chance desse exercício de grandeza que
prefere a sombra e os bastidores. Desçamos do palco de nossas
convicções, para ser possível melhorarmos por dentro.
Demétrio Pereira Sena
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 11/11/2008
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