|
POLÍCIA, MILÍCIA E MALÍCIA
Confesso que faço coro com os que dizem que a polícia tem como
expulsar os traficantes dos morros, estabelecendo a ordem social.
É necessário apenas que haja uma vontade política pouco observada
nesta questão, e que haja mais rigidez das autoridades as quais
compete esse trato com as corporações. Isso envolve treinamento
especializado, noções de respeito, ética e cidadania, necessários
na lida com as comunidades e, principalmente, um intenso trabalho
de acompanhamento psicológico para cada policial.
Ouso dizer que essa questão até passa pelos proventos dos
policiais, mas não está fundamentada nisto em nenhum momento. Não
podemos conceber a idéia de que lidamos com policiais que precisam
ser bem pagos para não virar bandidos. Aceitando esta máxima,
teremos de compreender e aquiescer até, que cidadãos de qualquer
faixa social virem bandidos porque estão desempregados, o que é
bem pior do que estar empregado e ganhar pouco. Se as condições
socioeconômicas fossem rigidamente fundamentais para o bom
caráter, não haveria tanta corrupção política, empresarial, nem
nos primeiros escalões da polícia e do judiciário, visto que se
trata de posições bem remuneradas e de prestígio na sociedade.
Logo, de pessoas que não "precisam" roubar. É claro que no
conjunto de tudo o que é necessário para contarmos com bons
policiais, entra o quesito remuneração, bem como os quesitos
aparato e treinamento, entre tantos outros. Esse conjunto é
fundamental, mas apenas pagar bem ou praticar qualquer destes
itens isoladamente não tem como funcionar.
O que não é aceitável, em nenhuma hipótese - e a isto não somo a
minha voz - é o uso das práticas das milícias como parâmetro para
a competência policial nos morros. Dizer que a polícia pode
expulsar os traficantes porque as milícias conseguem é
ingenuidade, senão malícia. O fato é que as milícias usam os
mesmos métodos que os traficantes, impondo sua truculência. Com
essa prática eles castigam, a reboque, toda a comunidade inocente
e trabalhadora desses morros.
Devemos ter em mente que a vantagem do bandido sobre a polícia nas
perseguições em favelas, está no fato de que o bandido não tem
nada a perder. O policial tem. O bandido não tem compromisso com
vidas inocentes. O policial sim. O bandido não tem amor à própria
vida, e é justo que o policial tenha. Quem pode atirar a esmo
nesses enfrentamentos é o bandido, por esse descompromisso que o
caracteriza. Dizer que se deve enfrentar a bandidagem tendo como
exemplo o poder e os métodos das milícias é orientar que se
pratique nos morros o inesquecível massacre do Carandiru, cometido
por policiais que fizeram o que muita gente prega como certo, que
é justamente copiar os criminosos. Estabelecer a desordem, a
tirania e a truculência, em nome da boa causa que, neste caso, não
é nada boa.
Admirar o Fernandinho Beira-Mar, porque ele pulou do terceiro
andar de um prédio sem que nenhum policial fizesse o mesmo, em sua
captura, é uma distorção de conceitos. Qualquer bicho acuado
arrisca a própria vida para tentar a fuga de um predador. Bicho
acuado que é, um bandido em fuga não mede as consequências de um
ato tresloucado, enquanto os policiais, que são os perseguidores,
fazem isso porque suas vidas valem mais do que aquele momento que
tem chances de se repetir, como foi o caso. Esse mesmo bandido
está hoje preso, sem que aqueles policiais arriscassem suas vidas,
apesar do erro que cometeram.
Muitos conceitos viram clichês, numa sociedade cheia de arroubos e
vícios, por causa da revolta e do medo que assola os lares, diante
da insegurança de nossos dias. Essa comparação entre a eficiência
da polícia e dos milicianos é um desses clichês. Não há como
comparar, até mesmo porque a eficiência das milícias mora no
caráter perverso e criminoso de policiais que pensam justamente
assim, com o agravamento de o fazerem antes de tudo em causa
própria. Ao invés de uma ideologia, eles têm ganância e fome de
poder.
Demétrio Pereira Sena
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 07/07/2008
|