|

POR UM FIO DE CABELO BRANCO
Aos quarenta e sete anos de idade, estou festejando a chegada de
um fio de cabelo branco. Ainda não tinha um, e as pessoas me
cobram constantemente, incomodadas com a idéia de que um homem na
minha idade carregue esse traço de preservação. Como se não
bastasse, nem mesmo a calvície veio me socorrer; o que amenizaria
esta imagem de lobo metido a garotão, por não aceitar os efeitos
do tempo.
Sinto-me constrangido, quando percebo parecer que tinjo os cabelos
de preto. Nunca o fiz, mas me perguntam sempre se é meu caso.
Aborrece-me a idéia dos comentários silenciosos e as possíveis
indagações sobre por que não faço logo uma cirurgia plástica. Isto
quer dizer que não pareço ter menos idade. Para ser verdadeiro,
até pareço ter mais. Só os cabelos foram preservados até agora,
contrastando com um rosto que mais parece uma teia. Rabiscado
impiedosamente pelo tempo.
Voltemos ao fio de cabelo. Ele surge como um pronto-socorro à
minha inquietação de homem tímido demais para responder a certas
perguntas feitas e não feitas, sobre a negrura da cabeleira
farta... Com o risco até de acharem que uso uma peruca, o que é
mais grave do que um homem tingir os cabelos... Pelo menos na
opinião de um matuto como eu, que faz questão de acompanhar a
própria idade, e não aderiu à idéia de juventude psíquica ou
espiritual. Quando for mesmo velho, quero ser por dentro e por
fora, sem levar na testa o epitáfio - epitáfio mesmo - MELHOR
IDADE.
O cabelo branco me deu uma certa dignidade. Posso dizer,
finalmente, o velho chavão "respeite meus cabelos brancos..." Está
bem; no plural ainda não, pois é um só, mas dizer "respeite meu
cabelo branco" já faz bem a minha auto-estima. Na verdade, estou
até ensaiando uma forma bem solene de fazer isso, para que esse
respeito, ao ser exigido, seja realmente respeito e não o deboche
de quem está sério por fora, mas retorcendo as tripas de tanto rir
por dentro, de minha pretensão.
Mas o que me amedronta mesmo, nessa história toda, é uma possível
mudança de postura quando minha cabeça mais parecer um sorve de
coco do que propriamente uma cabeça. Ficarei ridículo, e sem
perceber - pois toda pessoa ridícula não percebe que é -, se de
uma hora para outra resolver tingir meus cabelos de acaju,
entrando na onda pegajosa da tal de MELHOR IDADE.
Demétrio Pereira Sena
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 02/09/2008
|