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SOBRE RESPONSABILIDADE SOCIAL
Era honesta e visível a frustração do adolescente ao me procurar.
Sempre fora um aluno inquieto e desaforado, mas bom aluno.
Sobretudo no capricho com que fazia os trabalhos escolares e no
empenho por boas notas nos testes e provas bimestrais.
Estava muito angustiado naquele dia, e segundo ele, só era
possível desabafar comigo. Precisava de um conselho e gostava das
pausas que sempre fiz nas aulas, para falar de questões relativas
aos conflitos humanos. Ficava sempre calado e muito atento aos
assuntos propostos e debatidos: Família, país, ecologia, miséria,
corrupção, orientação sexual, opção religiosa, preconceito racista
(...).
Sentia-se alvo de preconceito. Mais do que isso, era
ridicularizado por sua homossexualidade já bem aflorada. Ouvia
piadas sobre o tema, sofria xingamentos e deboches, quando não o
queriam como a diversão da sala. Estava sem idéia de o que fazer
para sua turma deixá-lo em paz.
Por sorte, havia na minha mão uma revista com uma reportagem sobre
certo programa humorístico na tevê. Era destaque da matéria um
personagem machão, muito engraçado e ridículo; garantia de riso
farto nas noites de sábado. Com os olhos fixos na figura,
perguntei-lhe o que achava dela. "Hilário; tragicômico", disse
ele, meio perguntando o porquê de minha pergunta.
Disse-lhe que o machão, sempre alvo de chacotas na tevê e na vida
real é a caricatura do heterossexual que não se dá o respeito. É o
tal de "homem com agá maiúsculo" que vira piada popular, perde a
moral em casa, no trabalho e na rua sem se dar conta disso. Pensa
que amedronta, que é distinto e admirado, mas o seu narcisismo é
que é cego para perceber o riso nos olhos e no silêncio dos lábios
em derredor.
Ficou animada a conversa. Falamos das figuras caricatas de todos
os setores da sociedade: A feminista incondicional, o patrão
"brabo", a celebridade afetada, o galã narcisista, o motoqueiro
exibido, o "bady boy", o "cdf" da turma, o intelectualóide, o
bêbado, o comilão e diversos outros tipos com os quais convivemos.
Rimos juntos, recordando pessoas inesquecíveis pelos seus traços
hilários de comportamento refletidos na fala, no penteado, na
indumentária, na gesticulação e na forma de andar e se pôr de pé.
Depois de quase uma hora de um colóquio produtivo, ele mesmo
entendeu que estava se deixando caricaturar. Que o problema não
era sua orientação sexual. Chegamos à conclusão que o ser humano
tem um compromisso de vida em sociedade. Que esse compromisso
requer posturas sóbrias, responsáveis, de respeito próprio e pelas
instituições às quais pertencemos. A mais importante delas é a
família, e somos o seu reflexo nas outras instituições e na
sociedade como um todo.
Não há liberdade absoluta no convívio inter-pessoal. Isso quer
dizer que não somos bichos. O ser humano é regido por códigos,
regras, mandamentos, estatutos e leis. Só podemos viver bem se o
nosso comportamento público for embasado nos princípios de
responsabilidade social.
Demétrio Pereira Sena
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 10/07/2008
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