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TUDO EM NOME DO LUCRO?
A moça da loja de pães e bolos quis me vender um pão-de-fôrma com
validade vencida, usando um argumento esdrúxulo. Disse que os
produtos com validade vencida, inclusive remédios, são melhores
que os dentro da validade. Não satisfeita, fez olhos de sábia
incontestável assegurando que aprendera isso numa palestra.
Segundo ela, estava comprovado e pronto.
Como devo ser estúpido, inculto e incauto, não levei o pão.
Preferi optar por um produto fresco, mesmo correndo o risco de
contrair um câncer, por isto. Só não entendi, avaliando a lição da
moça, por que o produto fora da validade estava empilhado em lugar
bem à vista, numa promoção desesperada e "imperdível"; muito
abaixo do preço normal. Sendo melhor, por ter entrado em
decomposição e começado a criar mofo, acho que deveria estar mais
caro. Ela podia valorizar o produto, cobrando a mais pelos fungos
e ácaros e conquistando a gratidão das pessoas que nunca souberam
dos benefícios que trazem à saúde os gêneros alimentícios
bolorentos. Os medicamentos velhos. As conservas em latas
oxidadas. O bicho da goiaba.
Confesso que ainda não consigo ingerir nada estragado, mas estou
chegando lá. Já olho com mais simpatia prás carnes-de-sol
bichadas; pro feijão azedado que o boteco do Rafa reaproveita;
pros biscoitos empoeirados no varejão do mercadinho de minha rua.
Os coliformes fecais do hamburguer que meu preconceito nunca me
deixou saborear no velho quiosque da praça imunda que jamais
frequentei, por ser mesmo besta.
Boa vendedora, essa moça. Oferece pães e bolos como quem oferece
carro, computador e imóvel. Pela perfeição técnica de seu
argumento em torno das avarias alimentícias, ela seria uma exímia
vendedora de carros enguiçados, computadores em desuso e prédios
condenados pela defesa civil, por serem "melhores" que os em bom
estado. Só não poderia, com essa mentalidade, ser médica nem
professora, por preferir paciente morto e aluno reprovado.
Não. Pensando bem, acho que não sou estúpido por não apreciar
comida putrefata. A moça é que é. Estúpida e irresponsável, por
querer impor ao mundo à sua volta esse mundinho particular do vale
tudo para não correr o risco do eventual encalhe, com a justa
redução de lucro. Até mesmo porque uma coisa é certa: Ela jamais
daria aos seus o que recomenda aos nossos.
Demétrio Pereira Sena
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 06/08/2008
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