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VERSO E VICE-VERSO
Se fizesse uma acareação literária visando uma comparação entre
ambas as modalidades, diria de início que as diferenças são bem
sutis. Cada uma com seu valor, seus efeitos e nuances, apresenta
características ao mesmo tempo distintas e semelhantes em relação
à outra. Poderia dizer, por exemplo, que o verso é esgrima e a
prosa é adaga. Se a prosa é víscera, verso é alma. Verso faz
beicinho enquanto a prosa, charme.Afirmo que pouco importa quanto
a serem de amor ou de sociedade, eróticos ou ecológicos (e creia,
os dois lados dão conta de seus temas com eficácia). Este parece
entrar pelos olhos e (ou ouvidos) e chegar lentamente à alma.
Aquela, invadir a veia e chegar ligeiro à corrente sanguínea. De
qualquer modo, em silêncio. Subjetiva ou objetivamente, sempre
levando a mensagem; deixando seu registro, sentido e sentimento
eternizados no ser humano e nos papéis.Iria um pouco adiante,
afirmando que o verso sussurra e a prosa cochicha. Ela dança, ele
rodopia. Prosa é
bêbada e verso é ébrio. Verso incursão, prosa excursão; prosa
voa e verso paira. Ela é bela, ele encantador. Um pede sigilo, a
outra silêncio.Poeta faz verso e sabe poetar quando proseia.
Prosador faz prosa e sabe prosear poetando. É do prosador o
idioma, do poeta o dialeto. Poeta exibe matizes, prosador tons.
Aquele tem harmonia, este coerência.Prosa e verso diferem quase
apenas na estética e nos ritmos. Ambos deságuam no mar, sendo que
uma é rio para que o outro seja riacho, e vice-versa. Posso
arriscar que o verso é montanha enquanto a prosa é serra. Ela
faz-se brisa, ele aragem. Este garagem, aquela
estacionamento.Prosa é palmeira e coqueiro o verso. Universo a
dita, infinito o cujo. Sendo rocha o verso, a prosa é pedreira.
Chego a crer que o verso seja suplente da prosa, no mesmo ponto em
que a prosa... Vice-verso.
Demétrio Pereira Sena
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 18/07/2008
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