A casa dos grandes pensadores
 
 

DEMÉTRIO PEREIRA SENA

 

VERSO E VICE-VERSO

Se fizesse uma acareação literária visando uma comparação entre ambas as modalidades, diria de início que as diferenças são bem sutis. Cada uma com seu valor, seus efeitos e nuances, apresenta características ao mesmo tempo distintas e semelhantes em relação à outra. Poderia dizer, por exemplo, que o verso é esgrima e a prosa é adaga. Se a prosa é víscera, verso é alma. Verso faz beicinho enquanto a prosa, charme.Afirmo que pouco importa quanto a serem de amor ou de sociedade, eróticos ou ecológicos (e creia, os dois lados dão conta de seus temas com eficácia). Este parece entrar pelos olhos e (ou ouvidos) e chegar lentamente à alma. Aquela, invadir a veia e chegar ligeiro à corrente sanguínea. De qualquer modo, em silêncio. Subjetiva ou objetivamente, sempre levando a mensagem; deixando seu registro, sentido e sentimento eternizados no ser humano e nos papéis.Iria um pouco adiante, afirmando que o verso sussurra e a prosa cochicha. Ela dança, ele rodopia. Prosa é
  bêbada e verso é ébrio. Verso incursão, prosa excursão; prosa voa e verso paira. Ela é bela, ele encantador. Um pede sigilo, a outra silêncio.Poeta faz verso e sabe poetar quando proseia. Prosador faz prosa e sabe prosear poetando. É do prosador o idioma, do poeta o dialeto. Poeta exibe matizes, prosador tons. Aquele tem harmonia, este coerência.Prosa e verso diferem quase apenas na estética e nos ritmos. Ambos deságuam no mar, sendo que uma é rio para que o outro seja riacho, e vice-versa. Posso arriscar que o verso é montanha enquanto a prosa é serra. Ela faz-se brisa, ele aragem. Este garagem, aquela estacionamento.Prosa é palmeira e coqueiro o verso. Universo a dita, infinito o cujo. Sendo rocha o verso, a prosa é pedreira. Chego a crer que o verso seja suplente da prosa, no mesmo ponto em que a prosa... Vice-verso.


Demétrio Pereira Sena

Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 18/07/2008