A casa dos grandes pensadores
 
 
 
 

ELLEN VIEIRA

 

 

O dia em que passei a desacreditar na raça humana

Estava eu dia destes, caminhando pelas ruas de São Paulo, quando me deparei com uma situação que me deixou triste e um pouco revoltada. Contarei. Vi uma senhora de cabelos brancos e pés descalços sentada em uma calçada. Vestia-se com um vestido surrado e tinha um lenço na cabeça. Seu olhar parecia cansado e ao mesmo tempo demonstrava cuidado: junto dela estavam três crianças - três meninos - sem camisa e apenas se cobrindo com bermudinhas pequeninas. Um deles enquanto degustava uma chupeta como se estivesse faminto e desprovido do leite materno, estendia suas mãos às pessoas que passavam como se não percebessem a presença deles ali.
Resolvi me aproximar para tentar ajudá-la e perguntei se eles tinham onde morar ou pelo menos ficar naquela noite que prometia, segundo os noticiários, muita chuva e enchente (coisa que acontece freqüentemente na cidade). A senhora respondeu-me dizendo que não precisava de algo mais que não fora dinheiro para comprar os remédios os quais a manteriam viva para cuidar dos netos órfãos. Ela falava sem fitar meus olhos e seu tom de voz me soava estranho.
Vasculhei meus bolsos e encontrei uma última moeda. Entreguei-lhe aflita. E certo sentimento indescritível me dominava: certa intuição junto de uma insegurança.
Fui até o banco ao lado a fim de doá-la uma quantia maior e durante os vinte minutos em que aguardei na fila do caixa eletrônico passou certo filme em minha mente. Pensei naquelas crianças. Como será que se sentiam jogadas naquela calçada sem o amor de um pai e uma mãe? Pensei na miséria em que tantas famílias se encontram. Pensei no governo e no motivo de as leis, de os direitos não se fazerem valer no Brasil. Aí pensei se era assim nos outros países e lembrei das crianças desnutridas da Etiópia e do Afeganistão. Então, fui toda e movida pela comoção. Saquei uma boa quantia no desejo de ajudar pelo menos àquela família.
Quando cheguei, eles já não estavam no local. Pude avistá-los atravessando a rua e depois de pensar duas vezes os segui correndo para fazer minha doação.
No outro lado da rua, encostou um carro importado e a senhora parou. Desceu uma mulher muito bonita: loira, de óculos escuros; vestida como uma primeira-dama. As crianças foram ao encontro da misteriosa mulher e abraçaram-na como se estivessem tocando sua mãe novamente. Meus olhos se encheram de lágrimas. Foi então, que ouvi o que me causou a revolta da qual falei no início:
- Mamãe! - Disse uma das crianças.
O que seguiu de um:
- E aí filhotes? Ajudaram a vovó a ganhar bastante dinheiro hoje?
Toda aquela comoção fora tomada em poucos segundos por uma repugnância, por um sentimento de ódio e revolta. Quis entender o porquê de os seres humanos serem tão sujos uns com os outros. Pensei. E somente pensei. E quase formulei uma idéia sobre as leis não se fazerem valer. Não cheguei a nenhuma conclusão. Apenas continuei meu caminho desacreditando na raça humana e revendo meus conceitos. Fora tomada pelos sentimentos.

 

Ellen Vieira

Publicação: www.paralerepensar.com.br - 10/06/2008