O dia em que passei a desacreditar na
raça humana
Estava eu dia destes, caminhando pelas ruas de São
Paulo, quando me deparei com uma situação que me deixou
triste e um pouco revoltada. Contarei. Vi uma senhora de
cabelos brancos e pés descalços sentada em uma calçada.
Vestia-se com um vestido surrado e tinha um lenço na
cabeça. Seu olhar parecia cansado e ao mesmo tempo
demonstrava cuidado: junto dela estavam três crianças -
três meninos - sem camisa e apenas se cobrindo com
bermudinhas pequeninas. Um deles enquanto degustava uma
chupeta como se estivesse faminto e desprovido do leite
materno, estendia suas mãos às pessoas que passavam como
se não percebessem a presença deles ali.
Resolvi me aproximar para tentar ajudá-la e perguntei se
eles tinham onde morar ou pelo menos ficar naquela noite
que prometia, segundo os noticiários, muita chuva e
enchente (coisa que acontece freqüentemente na cidade).
A senhora respondeu-me dizendo que não precisava de algo
mais que não fora dinheiro para comprar os remédios os
quais a manteriam viva para cuidar dos netos órfãos. Ela
falava sem fitar meus olhos e seu tom de voz me soava
estranho.
Vasculhei meus bolsos e encontrei uma última moeda.
Entreguei-lhe aflita. E certo sentimento indescritível
me dominava: certa intuição junto de uma insegurança.
Fui até o banco ao lado a fim de doá-la uma quantia
maior e durante os vinte minutos em que aguardei na fila
do caixa eletrônico passou certo filme em minha mente.
Pensei naquelas crianças. Como será que se sentiam
jogadas naquela calçada sem o amor de um pai e uma mãe?
Pensei na miséria em que tantas famílias se encontram.
Pensei no governo e no motivo de as leis, de os direitos
não se fazerem valer no Brasil. Aí pensei se era assim
nos outros países e lembrei das crianças desnutridas da
Etiópia e do Afeganistão. Então, fui toda e movida pela
comoção. Saquei uma boa quantia no desejo de ajudar pelo
menos àquela família.
Quando cheguei, eles já não estavam no local. Pude
avistá-los atravessando a rua e depois de pensar duas
vezes os segui correndo para fazer minha doação.
No outro lado da rua, encostou um carro importado e a
senhora parou. Desceu uma mulher muito bonita: loira, de
óculos escuros; vestida como uma primeira-dama. As
crianças foram ao encontro da misteriosa mulher e
abraçaram-na como se estivessem tocando sua mãe
novamente. Meus olhos se encheram de lágrimas. Foi
então, que ouvi o que me causou a revolta da qual falei
no início:
- Mamãe! - Disse uma das crianças.
O que seguiu de um:
- E aí filhotes? Ajudaram a vovó a ganhar bastante
dinheiro hoje?
Toda aquela comoção fora tomada em poucos segundos por
uma repugnância, por um sentimento de ódio e revolta.
Quis entender o porquê de os seres humanos serem tão
sujos uns com os outros. Pensei. E somente pensei. E
quase formulei uma idéia sobre as leis não se fazerem
valer. Não cheguei a nenhuma conclusão. Apenas continuei
meu caminho desacreditando na raça humana e revendo meus
conceitos. Fora tomada pelos sentimentos.
Ellen
Vieira