Sobre a colcha de retalhos... O
desabafo.
Às vezes vejo minha vida como uma enorme colcha de
retalhos. De tudo que passou, me recordo apenas de
algumas cenas que marcaram mais; que ficaram de fato,
cravadas na minha memória. Percebo que a cada dia que
passa, esses retalhos, esses pedacinhos de minha vida,
ficam mais apagados, não tão nítidos como eram. Dia vai,
noite vem; o tempo vai indo embora e me deixando apenas
a certeza de que me resta pouco tempo para descobrir o
meu ponto de equilíbrio ou talvez algum sentido para
continuar a tecer a colcha das minhas lembranças.
Entre as minhas recordações estão desde as discussões
com o padrasto quando era menor - o que deve ser o
motivo para minhas mãos tremerem tanto quando presencio
uma briga qualquer - até as risadas boas que eu dava
pela manhã, acordando após uma noite de filme e amor no
quarto escuro e cheio de latinhas de um amor que já se
foi.
A única coisa que consigo pensar quando tais lembranças
surgem, é que as pessoas não passam em nossas curtas
vidas por acaso. Elas sempre deixam marcas, de uma forma
ou de outra, boas ou ruins. O que não consigo entender é
a razão pela qual, coisas pequenas, que vivenciei na
pré-escola - por Deus! Na pré-escola - ainda ecoarem
insistentes na minha memória. Apagadas. Não tão nítidas.
Mas o sentimento. Aquilo que senti naqueles momentos
ainda persistirem.
Lembro-me de certa vez, por exemplo, em que teimei com
um menino que o lápis que ele tinha na mão era azul
marinho e não roxo, e ele insistindo em dizer que era
roxo. Senti um ódio. Tinha certeza do que estava
falando, caramba! E essa coisa tão boba faz sentir-me
igual ainda hoje. Talvez seja algo que eu tenha que
trabalhar, sei lá. O engraçado é que me lembro muito
mais, das vezes em que fiz algo que sabia que não era
correto. O sentimento de estar me corrompendo,
desobedecendo. O sentimento ruim: é ele que marca mais.
E não entendo por que. Retalhos escuros. Acho que tem
mais deles nessa colcha. E as dúvidas inundam meu ser.
[...]