A casa dos grandes pensadores
 
 
 
 

ELLEN VIEIRA

 

 


Sobre a colcha de retalhos... O desabafo.

Às vezes vejo minha vida como uma enorme colcha de retalhos. De tudo que passou, me recordo apenas de algumas cenas que marcaram mais; que ficaram de fato, cravadas na minha memória. Percebo que a cada dia que passa, esses retalhos, esses pedacinhos de minha vida, ficam mais apagados, não tão nítidos como eram. Dia vai, noite vem; o tempo vai indo embora e me deixando apenas a certeza de que me resta pouco tempo para descobrir o meu ponto de equilíbrio ou talvez algum sentido para continuar a tecer a colcha das minhas lembranças.
Entre as minhas recordações estão desde as discussões com o padrasto quando era menor - o que deve ser o motivo para minhas mãos tremerem tanto quando presencio uma briga qualquer - até as risadas boas que eu dava pela manhã, acordando após uma noite de filme e amor no quarto escuro e cheio de latinhas de um amor que já se foi.
A única coisa que consigo pensar quando tais lembranças surgem, é que as pessoas não passam em nossas curtas vidas por acaso. Elas sempre deixam marcas, de uma forma ou de outra, boas ou ruins. O que não consigo entender é a razão pela qual, coisas pequenas, que vivenciei na pré-escola - por Deus! Na pré-escola - ainda ecoarem insistentes na minha memória. Apagadas. Não tão nítidas. Mas o sentimento. Aquilo que senti naqueles momentos ainda persistirem.
Lembro-me de certa vez, por exemplo, em que teimei com um menino que o lápis que ele tinha na mão era azul marinho e não roxo, e ele insistindo em dizer que era roxo. Senti um ódio. Tinha certeza do que estava falando, caramba! E essa coisa tão boba faz sentir-me igual ainda hoje. Talvez seja algo que eu tenha que trabalhar, sei lá. O engraçado é que me lembro muito mais, das vezes em que fiz algo que sabia que não era correto. O sentimento de estar me corrompendo, desobedecendo. O sentimento ruim: é ele que marca mais. E não entendo por que. Retalhos escuros. Acho que tem mais deles nessa colcha. E as dúvidas inundam meu ser. [...]

Ellen Vieira

Publicação: www.paralerepensar.com.br - 10/06/2008