A casa dos grandes pensadores
 
 

EUGEN PFISTER

 

 

A irrealidade do real ou qualquer coisa parecida
Eugen Pfister
 Minha vida nunca mais foi a mesma depois que encontrei no porão do apartamento em que moro os manuscritos do Sr. K. A descoberta, um tanto quanto kafkiana, substituiu os pensamentos mais íntimos que nutria sobre sexo com Madame Bovary pela questão da irrealidade do real.
 Depois de sofrer a metamorfose que o converteu em barata, o Sr.K, ao ter que se defender de um Processo sem acesso ao teor das acusações, tomou três decisões transcendentais:
 
- escrever várias Cartas ao Pai;
-  a realidade. o desta vida e de vidas futuras a investigar o qualidad que se defender de um Processo sem ter acesso ao teor das escrever outras tantas Cartas à Milena;
- dedicar o resto desta vida e de vidas futuras a investigar o quão real é a realidade.
 
Nesse ponto Kafka e eu temos algo em comum. Do meu lado, encontrei argumentos a favor e contra a realidade e a imaginação. Permita-me, caro leitor, alguns exemplos. 
 
Sempre que embarco no metrô no horário de pico, constato que pior que não ter onde cair morto é não ter onde ficar vivo e em pé num transporte público em São Paulo.  Ora, isso não é imaginação: caneladas, pisões nos pés, odor de sovaco, esfrega-esfrega ao ritmo do stop and go do trem são tão reais quanto os papagaios que devo ao banco.
 
De outro lado, a experiência de sardinha em lata tem a vantagem de nos preparar para enfrentar congestionamentos futuros maiores no céu ou no inferno. Basta fazer a conta de quantos indivíduos passaram desta para melhor (ou pior) desde o surgimento do homo sapiens.
Thomas Malthus, que além de pastor era economista e, portanto, entendia das coisas do céu e da terra, estava aplicando a sua célebre teoria sobre os problemas da superpopulação à vida do além quando, parece, morreu pisoteado num bazar de liquidações em Pequim.
Agora, mesmo ciente que outra vantagem incomensurável da realidade é ela ser o único lugar no universo onde servem chope gelado, admito que tenho problemas em elevá-la à condição de imperativo categórico. A questão é que ela é muito real para o meu gosto.
De resto, ela e os realistas costumam ser chatos de galocha.
- (Marido): Eram 3:15 da tarde.
- (Esposa): Não benhê, eram 3:14.
- (Marido): Como 3:14? Que relógio você consultou? No meu o ponteiro dos minutos estava cravado no quinze e o ponteiro da hora...
- (Esposa): Lá vem você de novo. Não suporto essa sua mania de atropelar os fatos.
Não se iludam caros leitores, o casal acima, pese as aparências, está dando uma sonora banana aos fatos. Tampouco estão discutindo a relação. Nada disso! A questão existencial em jogo é decidir se é preferível tomar arsênico na sexta a noite ou passar o próximo fim de semana juntos.
Albert Camus já sentenciara que a único tema filosófico autêntico era o suicídio. Quem sou eu para discordar do emérito existencialista franco-argelino.
Como os leitores perspicazes podem perceber, a briga entre idealistas e materialistas transcende as academias de halterofilismo e de filosofia. Vejam nossos pais. Eles ficam preocupados quando percebem que um dos filhos anda no mundo da lua, o que é fácil descobrir quando se tem um telescópio potente em casa.
Lembro como se fosse hoje o dia em que meus pais presentearam meu irmão com uma bicicleta enquanto eu fui presenteado com As Dores do Mundo de Schopenhauer. Desde então não paro de pensar qual a mensagem oculta desse ato.
Aceito palpites desde que venham acompanhados de sugestões sobre restaurantes que sirvam bacalhau a provençal, sem espinhos e aipim com apfelstrudel (folhado de maçã) de entrada.
Enquanto não decifrei a mensagem oculta do erudito presente natalino, aproveitei os anos da doce inocência para brincar de médico com as meninas da vizinhança. É claro que meus amiguinhos protestavam, afinal eu sequer tinha sido diplomado.
Pudera. Como seria possível se ainda estava no berçário?
Hoje... Bom, hoje estou mais ajuizado. Consigo feitos notáveis como pagar o aluguel e pronunciar – pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico – também conhecida com pneumoconiose. A Academia Brasileira de Letras recomenda o uso desta palavra à primeira para os que sofrem de gagueira.
Como diriam o Seu Jorge e a Ana Carolina e o Chico Buarque: é isso aí, essa é a história que carrego comigo...
Eugen Pfister Jr, consultor, educador, especialista em desempenho humano e gerencial.
E-mail epfister@terra.com.br

Publicação: www.paralerepensar.com.br  01/09/2008