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Meu
primeiro contato com Fernando Pessoa, foi através de uma
fita cassete gravada de um festival da MPB dos anos
sessenta. Essa fita, nos mostra o poeta e cantor Caetano Veloso,
enfrentando a platéia e sendo absurdamente vaiado por
conta da música "É proibido proibir". Nessa
ocasião, o Brasil passava por um sistema ditatorial muito
profundo, e a platéia paulistana não tendo aceito a música
do Caetano, presenteou o grande baiano com uma das maiores
vaias já imposta a um artista brasileiro. Nessa fita, eu
ouvi o Caetano falando do Fernando Pessoa de uma forma
bastante eloqüente, e como sempre
acreditei na inteligência e capacidade criadora do poeta
Caetano, me senti curioso e tentado a conhecer os
trabalhos desse magnífico escritor lusitano. Só posso
dizer, que fiquei maravilhado com a riqueza de pensamentos
e os detalhes dos seus poemas.
Em uma outra ocasião, quando participava de um concurso
de poesias, me veio o primeiro lugar e com ele, o prêmio:
nada mais nada menos que o antológico livro O
Guardador de Rebanhos de Fernando Pessoa. Não poderia
ter sido melhor agraciado. Adorei o presente, e hoje,
estou dedicando esta página a esse gênio da literatura
universal: Fernando Pessoa.
Albertino
Fernandes (Para Ler e Pensar)
- "Tenho em mim todos os sonhos do mundo."
(Fernando Pessoa)
-
- "Quem
não vê bem uma palavra não pode ver bem uma
alma"
-
- "A
literatura, como toda a arte, é uma confissão de
que a vida não basta."
-
- "Eu
que me agüente comigo e com os comigos de mim"
"...
há sem dúvidas quem ame o infinito, há sem dúvidas
quem deseje o possível , há sem dúvidas quem não
queira nada. Há 3 tipos de idealistas, e eu , nenhum
deles. Porque amo infinitamente o finito, porque desejo
impossivelmente o possível, pq quero tudo , ou um pouco
mais , se puder ser, ou até se não puder ser ... "
Cancioneiro
AUTOPSICOGRAFIA
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
Fernando Pessoa
POEMA EM LINHA RETA
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes
vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar
banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das
etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo
ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de
fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido
emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na
vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi
vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Poema
extraído do livro "O
EU PROFUNDO E OS OUTROS EUS", Fernando Pessoa,
antologia poética, editora Nova Fronteira)
- NA VÉSPERA de
nada
- Ninguém me
visitou.
- Olhei atento a
estrada
- Durante todo o
dia
- Mas ninguém
vinha ou via,
- Ninguém aqui
chegou.
- Mas talvez não
chegar
- Queira dizer que
há
- Outra estrada
que achar,
- Certa estrada
que está,
- Como quando da
festa
- Se esquece quem
lá está.
-
- Fernando Pessoa
Trechos de O
Guardador de Rebanhos
- I
-
- Eu nunca guardei rebanhos,
- Mas é como se os guardasse.
- Minha alma é como um pastor,
- Conhece o vento e o sol
- E anda pela mão das estrelas
- A seguir e a olhar.
- Toda a paz da Natureza sem gente
- Vem sentar-se a meu lado.
- Mas eu fico triste como um pôr de sol
- Para a nossa imaginação,
- Quando esfria no fundo da planície
- E se sente a noite entrada
- Como uma borboleta pela janela.
-
- Mas a minha tristeza é sossego
- Porque é natural e justa
- E é o que deve estar na alma
- Quando já pensa que existe
- E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.
-
- Como um ruído de chocalhos
- Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.
Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.
Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha.
É a minha maneira de estar sozinho.
E se desejo às vezes,
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.
Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu
pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas
idéias,
Ou olhando para as minhas idéias e vendo o meu
rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o
que se diz
E quer fingir que compreende.
Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
\e que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predileta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural -
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando creanças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado
II
- Tudo que vejo está nítido como um girassol.
- Tenho o costume de andar pelas estradas
- Olhando para a direita e para a esquerda,
- E de vez em quando olhando para trás...
- E o que vejo a cada momento
- É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
- E eu sei dar por isso muito bem...
- Sei ter o pasmo comigo
- Que teria uma creança se, ao nascer,
- Reparasse que nascera deveras...
- Sinto-me nascido a cada momento
- Para a completa novidade do mundo...
-
- Creio no mundo como num malmequer,
- Porque o vejo. Mas não penso nele
- Porque pensar é não compreender...
- O mundo não se fez para pensarmos nele
- (Pensar é estar doente dos olhos)
- Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
-
- Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
- Se falo na natureza não é porque saiba o que ela
é,
- Mas porque a amo, e amo-a por isso,
- Porque quem ama nunca sabe o que ama
- Nem sabe porque ama, nem o que é amar...
-
- Amar é a primeira inocência,
- E toda a inocência é não pensar...
-
- III
-
- Ao entardecer, debruçado pela janela,
- E sabendo por cima dos olhos que há campos em
frente,
- Leio até me arderem os olhos
- O livro de Cesário Verde.
-
- Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
- Que andava preso em liberdade pela cidade.
- Mas o modo como olhava para as casas,
- E o modo como reparava nas ruas,
- E a maneira como dava pelas pessoas,
- É o de quem olha para as árvores,
- E o de quem desce os olhos pela estrada por onde vai
andando
- E vê que está a reparar nas flores que há pelos
campos...
-
- Por isso ele tinha aquela grande tristeza
- Que ele nunca disse bem que tinha,
- Mas andava na cidade como quem não anda no campo
- E triste como esmagar flores em livros
- E pôr plantas em jarras...
-
- IV
-
- Esta tarde a trovoada caiu
- Pelas encostas do céu abaixo
- Como um pedregulho enorme...
-
- Como alguém que duma janela alta
- Sacode uma toalha de mesa,
- E as migalhas, por caírem todas juntas
- Fazem algum barulho ao cair,
- A chuva chiou do céu
- E enegreceu os caminhos...
-
- Quando os relâmpagos sacudiam o ar
- E abanavam o espaço
- Como uma grande cabeça que diz não,
- Não sei porquê - eu não tinha medo -
- Quis-me rezar a Santa Bárbara
- Como se eu fosse a velha tia de alguém...
-
- Ah, é que rezando a Santa Bárbara
- Eu sentir-me-ia ainda mais simples
- Do que julgo que sou...
- Sentir-me-ia familiar e caseiro
- E tendo passado a vida
- Tranqüilamente, ouvindo a chaleira,
- E tendo parentes mais velhos que eu
- E fazendo isso como se florisse assim.
- Sentir-me-ia alguém que possa acreditar em Santa
Bárbara...
- Ah, poder crer em Santa Bárbara!
-
- (Quem crê que há Santa Bárbara,
- Julgará que ela é gente e visível
- Ou que julgará dela?)
-
- (Que artifício! Que sabem
- As flores, as árvores, os rebanhos,
- De Santa Bárbara,?... Um ramo de árvore,
- Se pensasse, nunca podia
- Construir santos nem anjos...
- Poderia julgar que o sol
- Alumia e que a trovoada
- É um barulho repentino
- Que principia com luz.
- Ah, como os mais simples dos homens
- São doentes e confusos e estúpidos
- Ao pé da clara simplicidade
- E saúde de existir
- Das árvores e das plantas!)
-
- E eu, pensando em tudo isto,
- Fiquei outra vez menos feliz...
- Fiquei sombrio e adoecido e soturno
- Como um dia em que todo o dia a trovoada ameaça
- E nem sequer de noite chega...
V
Há metafísica bastante em não pensar em nada.
- O que penso eu do mundo?
- Sei lá o que penso do mundo!
- Se eu adoecesse pensaria nisso.
-
- Que idéia tenho eu das cousas?
- Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
- Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
- E sobre a criação do mundo?
- Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
- E não pensar. É correr as cortinas
- Da minha janela (mas ela não tem cortinas).
- O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
- O único mistério é haver quem pense no mistério.
- Quem está ao sol e fecha os olhos,
- Começa a não saber o que é o sol
- E a pensar muitas cousas cheias de calor.
- Mas abre os olhos e vê o sol,
- E já não pode pensar em nada,
- Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
- De todos os filósofos e de todos os poetas.
- A luz do sol não sabe o que faz
- E por isso não erra e é comum e boa.
-
- Metafísica? Que metafísica tem aquelas árvores?
- A de serem verdes e copadas e de terem ramos
- E a de dar fruto na sua hora, o que nos faz pensar,
- A nós, que não sabemos dar por elas.
- Mas que melhor metafísica que a delas,
- Que é a de não saber para que vivem
- Nem saber que o não sabem?
-
- "Constituição íntima das cousas"...
- "Sentido íntimo do universo"...
- Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
- É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
- É como pensar em razões e fins
- Quando o começo da manhã está raiando, e pelos
lados das árvores
- Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.
-
- Pensar no sentido íntimo das cousas
- É acrescentando, como pensar na saúde
- Ou levar um copo à água das fontes.
-
- O único sentido íntimo das cousas
- É elas não terem sentido íntimo nenhum.
-
- Não acredito em Deus porque nunca o vi.
- Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
- Sem dúvida que viria falar comigo
- E entraria pela minha porta dentro
- Dizendo-me, aqui estou!
-
- (Isto é talvez ridículo ao ouvidos
- De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
- Não compreende que fala delas
- Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)
-
- Mas se Deus é as flores e as árvores
- E os montes e o sol e o luar,
- Então acredito nele,
- Então acredito nele a toda hora,
- E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
- E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
-
- Mas se Deus é as árvores e as flores
- E os montes e o luar e o sol
- Para que lhe chamo eu Deus?
- Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
- Porque, se ele se fez, para eu o ver,
- Sol e luar e flores e árvores e montes,
- Se ele me aparece como sendo árvores e montes
- E luar e sol e flores,
- É que ele quer que eu o conheça
- Como árvores e montes e flores e luar e sol.
-
- E por isso eu obedeço-lhe,
- (Que mais sei eu de Deus que Deus de si-próprio?),
- Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
- Como quem abre os olhos e vê,
- E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
- E amo-o sem pensar nele,
- E penso-o vendo e ouvindo,
- E ando com ele a toda hora.
VI
- Pensar em Deus é desobedecer a Deus,
- Porque Deus Quis que o não conhecêssemos,
- Por isso se nos não mostrou...
-
- Sejamos simples e calmos,
- Como os regatos e as árvores,
- E Deus amar-nos-á fazendo de nós
- Nós, como as árvores são árvores
- E como os regatos são regatos
- E dar-nos-á verdor na sua primavera,
- E um rio aonde ir ter quando acabemos...
- E não nos dará mais nada, porque dar-nos mais seria
tirar-nos mais.
...
- IX
-
- Sou um
guardador de rebanhos.
- O rebanho é
os meus pensamentos
- E os meus
pensamentos são todos sensações.
- Penso com os
olhos e com os ouvidos
- E com as mãos
e os pés
- E com o nariz
e a boca.
-
- Pensar uma
flor é vê-la e cheirá-la
- E comer um
fruto é saber-lhe o sentido.
-
- Por isso
quando num dia de calor
- Me sinto
triste de gozá-lo tanto,
- E me deito ao
comprido na erva,
- E fecho os
olhos quentes,
- Sinto todo o
meu corpo deitado na realidade,
- Sei a verdade
e sou feliz.
-
-
XVIII
-
- Quem me
dera que eu fosse o pó da estrada
- E que os pés
dos pobres me estivessem pisando...
-
- Quem me
dera que eu fosse os rios que correm
- E que as
lavadeiras estivessem à minha beira...
-
- Quem me
dera que eu fosse os choupos à margem do rio
- E tivesse só
o céu por cima e a água por baixo...
-
- Quem me
dera que eu fosse o burro do moleiro
- E que ele
me batesse e me estimasse...
-
- Antes isso
que ser o que atravessa a vida
- Olhando
para trás de si e tendo pena...
-
-
- XXVII
-
- Só a
natureza é divina, e ela não é divina...
-
- Se às vezes
falo dela como de um ente
- É que para
falar dela preciso usar da linguagem dos homens
- Que dá
personalidade às cousas,
- E impõe
nomes às cousas.
-
- Mas as cousas
não têm nome nem personalidade:
- Existem, e o
céu é grande e a terra larga,
- E o nosso
coração do tamanho de um punho fechado...
-
- Bendito seja
eu por tudo quanto não sei.
- É isso tudo
que verdadeiramente sou.
- Gozo tudo
isso como quem está aqui ao sol.
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