A casa dos grandes pensadores
 
 
 

FABIANA TEIXEIRA

 

 

 

A  lenda da dona do silêncio.

 O vilarejo era pacato com suas estradinhas de pedras e suas pequenas casas enfileiradas, bem cuidadas e coloridas, com seus candeeiros na entrada que balançavam vez ou outra pela ventania. Perto dali se podia ver a beira do rio, uma cabana branca com duas grandes vidraças vermelhas, em sua varanda apenas uma cadeira amarela, em torno algumas folhagens e lá, morava a estranha mulher, cujo nome todos desconheciam e com sua chegada o vilarejo passou a viver num mistério.

Os moradores do vilarejo não entendiam por que  ela havia escolhido aquele lugar para morar, alguns chegaram a comentar que era uma assassina, uma fugitiva, que se escondia na cabana a beira do rio, porém ninguém tinha certeza de nada, e tudo não passava de meras suposições.

Com sua beleza ela encantava as pessoas, com seu jeito esquisito de viver as assustava, quando precisava sair da cabana a procura de ervas e açúcar, a estranha mulher usava um capuz negro que cobria todo seu corpo, dela se via apenas o rosto e alguns fios dos seus cabelos longos e dourados. Ela nunca falava, apenas indicava com o olhar o que desejava, para logo em seguida retornar depressa a sua cabana, deixando no ar um cheiro forte de acácias.

Ninguém sabia a sua história, tão pouco de onde vinha e o que desejava ali. Os que conseguiam vê-la diziam que a estranha mulher tinha grandes olhos que mais pareciam dois faróis azuis, e seus cabelos eram luminosos como o sol.

Logo os comentários sobre sua beleza se propagaram pelo vilarejo e as mulheres enciumadas advertiram aos seus companheiros de não olharem para ela caso a encontrassem pelo caminho, as mães amedrontadas não deixavam seus filhos brincarem a beira do rio, pois temiam que suas crianças desaparecessem. Ela usava um colar com uma grande estrela de pedra verde, que dançava em seu peito quando caminhava. Quem a via passar a olhava de soslaio, receosos, nada diziam contra ela, todos a temiam.

Era uma mulher de muitos segredos e um deles, era sua quimera, uma espécie de leão e dragão, que durante o dia, ela com um canto transformava em estatua, para evitar que os moradores soubessem de sua existência, pois não queria apavorá-los, sabia que as pessoas do vilarejo eram bondosas e ali era seu refugio. Por isso, apenas quando a noite chegava e todos adormeciam e o silêncio imperava, ela então despertava a quimera para fazê-la companhia, e lia seu imenso livro de magia, onde em cada pagina as letras pulavam como se estivessem vivas.

Em noites de lua cheia a mulher rodopiava feliz, e se banhava nas águas negras do rio gelado, com os braços para os céus cantando agradecendo a proteção da natureza, a quimera também festejava com ela, voando ao seu redor, cuspindo fogo e grunhindo, pois eles haviam fugido de onde moravam, um lugar distante onde quem possuísse poderes mágicos eram torturados e agora eles estavam em segurança, eram bons e a maldade não morava em seus corações.

 Todas as noites os moradores do vilarejo procuravam se proteger em suas casas, pois se sentiam ameaçados pelos comentários que surgiam sobre ela: diziam que em uma noite de tempestade um homem do vilarejo fascinado por sua beleza e intrigado por seus mistérios, entrara as escondidas em sua cabana e ela para se proteger, jogara um terrível feitiço sobre ele deixando-o sem voz. O pobre homem, desesperado havia corrido para os bosques, tentando se proteger com as mãos na garganta e não se soube quem era o tal homem e se comentário fosse verídico porém  ninguém se atrevia a importuná-la e no vilarejo ela passou a ser chamada “A Dona do Silêncio” e lá permaneceu com sua quimera, suas magias e seus segredos.
 

Fabiana Teixeira
 
Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 30/01/2008