A casa dos grandes pensadores
 
 
     
 

FABIANA TEIXEIRA

 

 

 

Coração de Menina

      Mais parecia um anjo sentada nas escadarias da Igreja em seu vestido de linho branco e suas sandálias azuis, com seus cabelos castanhos presos em doces laços de fitas brancas.  Seus olhos atentos sorriam observando as brincadeiras das crianças que se divertiam, com euforia na praça.

          A moça morava em uma cidade pequena do interior, onde todos se conheciam e todos os dias eram iguais, aos domingos, dia de missa à cidade acordava mais feliz, e todos se encontravam na Igreja, alguns para falar da vida alheia, outros por pura devoção e fé.

A mãe olhava com reprovação quando a moça fugia no meio da missa para sentar-se nas escadarias da igreja. Sapeca desde pequena ela sempre aprontava, contrariando sua mãe, que saia pela vizinhança desesperada com um lencinho bordado na mão, que vez ou outra agitava enquanto resmungava a procura da filha fujona.

Mãe severa foi esposa submissa aos desejos do marido coronel de temperamento forte onde as palavras dele sempre tinham razão.

Desde que tinha ficado viúva, D. Marta dedicava toda sua vida apenas à filha adorada, que era moça bem educada e na escola era a primeira da classe. Sempre bem arrumadinha com fitas nos cabelos e uniforme azul, a moça gostava dos poemas que a professora declamava no final da aula, e sonhava um dia ser igual a ela. Vez ou outra levava doces que sua mãe preparava para a professora, que lhe agradecia carinhosamente beijando sua face.

         A moça tinha alma doce e seu coração de menina, não conhecia a maldade. Depois da aula corria com suas amigas até a beira do rio e por lá ficava fazendo pulseirinhas de flores, descansando a sombra da mangabeira depois tirava os sapatos e banhava os pés no rio e quando lembrava de retornar à casa era já tardinha, ela então corria com os sapatos nas mãos, dando gargalhadas com as amigas, tentando adivinhar o que sua mãe iria dizer do seu desaparecimento e quando ela chegava em casa, sua mãe lhe dava um belo puxão de orelhas, mas ela esperta como era, logo pedia desculpas e a abraçava, fazendo D. Marta esquecer o acontecido e as preocupações.

A moça era um encanto e permanecia ali na escadaria da igreja olhando o rapaz que tinha saído da praça e vinha em sua direção sorrindo com timidez, fazendo seu coração de menina florescer, enquanto D. Marta parada a porta da igreja, os observava com seus olhos vigilantes e o rosário nas mãos.


Fabiana Teixeira

Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 11/12/2006