A casa dos grandes pensadores
 
 
 

FABIANA TEIXEIRA

 

 

 

O Anjo azul

Era noite e as pessoas andavam apressadas ansiando o aconchego de seus lares as folhas douradas cobriam as ruas frias da cidade e as arvores estavam solitárias sem o manto verde das folhas.

         Marina resolveu sentar para descansar em uns dos banquinhos espalhados pelas calçadas próximo ao centro da cidade, ela trabalhava a poucos metros dali e exausta começou a fitar o céu procurando a lua que teimava em se esconder.

       Enquanto descansava sentindo o vento frio em sua face rosada, refletia sobre as visões que tivera ultimamente, tudo acontecia rápido e lembrava apenas que sempre havia uma imensa luz voando, que logo desaparecia.

       Sabia que não estava louca, havia até lido livros sobre o assunto, com testemunho de pessoas que afirmavam ter tido visões assim como ela, e embora não quisesse acreditar nessas crendices, precisava encontrar uma explicação para tudo o que estava acontecendo, tentava achar alguma pista que pudesse lhe dar a certeza de que essas visões não fossem mero fruto de sua imaginação.

       Confusa com seus pensamentos decidiu levantar-se e ir para casa, seguiu em direção a estação para pegar o metrô e meia hora depois estava abrindo a porta do seu silencioso apartamento. Como sempre fazia ao chegar, tomou um banho quente e foi direto para seu quarto onde logo adormecera sem jantar, seu namorado ligou várias vezes durante a madrugada, mas ela sequer ouviu o telefone tocar, cansada adormecera profundamente.

No dia seguinte levantou-se cedo e ouviu o recado em sua secretária eletrônica, sorriu ao ouvir a voz do seu namorado advertindo-a para que não esquecesse de se agasalhar antes de sair para o trabalho. Ela estava em pé, mas se sentia uma sonâmbula indo até a cozinha, onde preparou um chá de hortelã que depois bebera calmamente e comeu algumas torradas com geléia de laranja, em seguida pegou seu cachecol rosa, fechou o zíper de suas botas até a altura dos joelhos e saiu. Ela nem imaginava que teria um dia cheio de surpresas.

         Enquanto arrumava os perfumes nas vitrines da loja, sentiu alguém sussurrar em seu ouvido, em seguida ouviu um barulhinho estranho similar a de um riacho, que coisa mais estranha! Pensou consigo mesma, mal terminou seu pensamento e um garoto entra na loja com as mãozinhas cheias de moedas lhe pedindo doces, ela afaga os cabelos dourados do menino e explica que na loja há apenas perfumes para vender e se surpreende ao ouvir a criança lhe responder seriamente que irá reencontrá-la em breve, e como por magia desaparece diante dos seus olhos, deixando um imenso despertador branco em seu lugar. Marina assustada pensa que está realmente ficando louca, não saberia como explicar às pessoas aquele imenso relógio no meio da loja, atordoada esfrega os olhos na tentativa de despertar daquele momento em que estava vivendo, mas ela não despertou tudo havia acontecido de fato e o relógio continuava ali com os ponteiros girando velozmente sem parar e fixando os ponteiros enlouquecidos do relógio, ela se sente mal e perde os sentidos.

         Quando Marina acordou estava em seu quarto e seu namorado dormia ao seu lado, a roupa dele indicava que tinha vindo direto do trabalho para vê-la e que na certa adormecera devido ao cansaço, havia flores no quarto, eram lindas margaridas em um vaso de prata, em cima da mesinha próxima a janela.

Ela olha carinhosamente seu namorado adormecido tentando lembrar o que tinha acontecido,porém apenas uma vaga lembrança lhe veio em mente, recordava o imenso relógio branco e seus ponteiros loucos. Preocupada ela toca o braço dele para despertá-lo, e agitado ele desperta logo explicando que alguém a encontrou desmaiada na perfumaria e tinham lhe telefonado avisando e ele imediatamente chamara uma ambulância, os médicos explicaram que ela estava bem e precisava apenas de repouso. Marina tentou explicar o que havia acontecido mencionou o relógio, e ele negou dizendo que não havia relógio algum na loja, achava que ela estava cansada demais e precisava repousar, preocupado lhe informou que tirariam férias e viajariam juntos para esquecer essas bobagens, e sendo assim ela concordou e não disse mais uma palavra sequer, sabia o quanto seria difícil convencê-lo a acreditar nas coisas loucas que tinha vivido, pois ele sempre zombava quando tentava falar sobre as visões, achava que ela estava brincando e nunca a levava a sério. Beijaram-se e ele saiu do quarto dizendo que logo voltaria, e que iria ao supermercado na esquina comprar algumas coisas para o jantar. Ela ouviu o barulho da porta se fechando e logo o silencio inundou o apartamento.

Nesse momento ela percebeu uma luz azul entrando pelas frestas da janela do seu quarto e como já pressentisse não ousou gritar, o seu coração estava calmo e se sentia preparada, a luz azul penetrou o quarto para depois explodir em várias tonalidades simultâneas iluminando tudo. As pétalas das margaridas voavam por todo apartamento e um cheiro delicioso de flores invadiu todos os cômodos, a luz se transformou em um lindo anjo azul com suas asas gigantescas, e a face do anjo era a face do garoto que havia entrado na perfumaria pedindo doces, de repente ela lembrou tudo o que havia acontecido. Marina se encantou com a beleza do anjo e aquelas luzes, as pétalas e o perfume doce que dominava o apartamento e uma paz a invadiu totalmente, sabia que havia chegado o momento recordou todos os avisos que recebera e tranquilamente perguntou ao anjo como faria para avisar as pessoas que a amam sobre sua partida repentina e o anjo lhe respondeu com ternura que ela não se angustiasse, pois ela iria se comunicar com eles através dos sonhos e que eles iriam compreender e não sofreriam com a sua partida, pois seus amigos também haviam recebido avisos e tudo estava pronto, pois assim tinham decidido os seres de luz, ela precisava partir por ter sido escolhida por eles para ajudar o universo, ela tinha uma missão a cumprir e isso a faria retornar a terra para ajudar as pessoas que vagam na escuridão, mas antes, deveria partir e se preparar espiritualmente. Ela concordou fazendo um gesto com a cabeça enquanto apertava a gola de sua longa camisola branca. O anjo a pegou nos braços e nesse momento Marina se sentiu estranha como se delirasse, com um sopro o anjo azul abriu as janelas e os dois saíram voando deixando um rastro de estrelas brilhantes por onde passavam.

 
Fabiana Teixeira
 
Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 17/07/2008