A casa dos grandes pensadores
 
 
 

FABIANA TEIXEIRA

 

 

 

O mal entendido

Ela estava sentada em sua poltrona vermelha, ainda de pijama, com seus olhos pequenos e sonolentos, seus cabelos curtos desarrumados e com o celular azul em suas pequenas mãos, Anita olhava preguiçosamente as inúmeras fotografias de quando era criança penduradas na parede do seu quarto e sorria.
Sonhara com Raul a noite anterior, sentia saudades, assim decidiu enviar um torpedo para ele, lhe desejando bom dia.
Os dois haviam se conhecido virtualmente a apenas três meses em uma sala de bate-papo, moravam em cidades diferentes, Anita em São Paulo, e Raul na Bahia, ambos estavam apaixonados e se comunicavam carinhosamente trocando vários e-mails e torpedos todos os dias.
Anita acreditou ter muita sorte, ficou com a cabeça nas nuvens e tudo parecia perfeito para ela. Raul tinha sido seu primeiro amor, havia esperado tanto tempo para encontrar uma pessoa especial e eis que havia surgido, Anita com seus trinta anos não era mais uma menina, e tão pouco estava disposta a perder tempo, era adulta e independente, queria casar-se e ter muitos filhos com ele.
E o fato de ter encontrado o amor assim, daquela maneira, para ela tão inusitada, só a fazia acreditar que o destino teria reservado aquele momento único para sua vida, e pretendia conhecê-lo assim que fosse possível para os dois, pois haviam prometido um para outro que iriam se encontrar e planejar uma vida juntos, ela acreditava que nada no mundo a impediria de realizar o seu sonho.
Apaixonada se encantou com as palavras de amor de Raul, havia recebido uma foto dele por e-mail, desde o primeiro dia em que haviam se conhecido virtualmente, e não pensava em outra coisa, a não ser em ter o belo baiano dos olhos verdes em seus braços, pensava nele o tempo todo, não conseguia trabalhar direito no escritório, pois seu coração tinha pressa, muita pressa para ser feliz ao lado dele. Ela sabia das dificuldades, temia a reação da família e por isso resolveu manter em segredo o seu romance virtual, pois imaginava o que sua mãe Adélia, e seu pai Antônio um casal tão tradicional, achariam daquilo tudo, imaginava suas vozes preocupadas; dizendo o quanto ela havia sido ingênua ao ponto de se apaixonar por um desconhecido, talvez, até um psicopata! E se ela não havia lido os jornais, pra saber sobre os vários casos, em que relatavam os romances virtuais perigosos, que muitas vezes terminavam em tragédia.
Mas, Anita não podia fazer nada.. Quando ela lembrava os belos olhos verdes de Raul, sorria da cena que havia imaginado, como toda mulher apaixonada ela não temia, estava disposta a enfrentar a situação, tinha a certeza que depois de conhecê-lo pessoalmente, iria por um fim nas preocupações, iria apresentá-lo aos pais e tudo terminaria bem, ela não conseguia cogitar que algo pudesse dar errado, e que pudesse perdê-lo, mas a vida reservou uma surpresa para ela, semanas depois, quando Anita almoçava na chácara de sua avó materna, recebeu um torpedo de Raul, e logo se rendeu conta que o torpedo apaixonado na verdade, não era para ela, pois Raul lamentava a morte de uma prima de Anita, e dizia que lhe amava, porém nenhuma prima de Anita havia morrido. Raul provavelmente tinha se atrapalhado, enviando o torpedo para ela.
Abatida pela decepção, Anita ficou em silêncio por alguns segundos, olhando para o celular, enquanto sua avó perguntava o que a sua neta fazia parada como uma tola, olhando fixamente aquela coisa azul em suas mãos. Mas, Anita não escutou, caminhou até o quarto de sua avó, e se jogou na cama aos prantos banhando com suas lágrimas de ira a colcha de retalhos. Depois, ligou para Raul e atônita pediu uma explicação,e sem lhe dar tempo para responder, como uma metralhadora,disparou várias palavras ofensivas, Raul do outro lado ficou sem entender, e não sabendo o que dizer, desligou o celular.
Anita continuou no quarto, deitada na cama, olhando fixamente o teto, atordoada sem saber o que pensar. Minutos depois, Raul lhe telefonou, tentando contornar a situação, explicando que tudo foi um mal entendido sim, mas, que ele não tivera culpa, que apenas havia recebido um torpedo de uma amiga, pensando que fosse Anita, angustiado jurou que não tinha outra mulher em sua vida, que tudo aquilo era uma asneira. E suas explicações foram inúteis, Anita apenas acreditou no que desejava acreditar, talvez não o amasse tanto assim, e o encanto daquele frágil amor virtual terminou naquela tarde cinza e chuvosa.
 
Fabiana Teixeira
 
Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 21/01/2008